Há um sintoma que revela a saúde de um
governo ou regime: a forma como escolhe quem dirige. Quando a direcção de uma
escola exige mais um cartão de militante do que uma formação pedagógica ou
quando a gestão do arquivo histórico de um país é entregue a um aliado político
em vez de um técnico formado na área, a conclusão é inevitável. O mérito foi
substituído pela obediência.
Isto não é um pormenor administrativo.
A escola é o lugar onde se aprende a duvidar, a perguntar e a argumentar. Se
quem a dirige deve o lugar à fidelidade partidária, o que se ensina, mesmo sem
palavras, é que progredir exige calar. O director que sabe que o cargo depende
do partido não protegerá o professor que pensa de forma independente. Protegerá
o seu lugar. Assim se forma uma geração que aprende cedo que pensar tem custos
e que pertencer compensa.
O arquivo histórico é ainda mais
grave. Um arquivo é a memória organizada de uma nação, e a memória é matéria de
poder. Quem a controla decide o que se preserva, o que se cataloga e o que se
deixa apodrecer numa prateleira. Um técnico de formação responde a normas
profissionais que valem independentemente de quem governa. Um aliado político
responde a quem o nomeou. Num caso, a história é um património de todos. No
outro, torna-se um instrumento de legitimação.
O custo é também económico e social.
Um país que desperdiça os seus quadros mais competentes por não terem a cor
certa empobrece-se. O engenheiro, a historiadora e o professor preparados e sem
filiação são empurrados para a margem, para o silêncio ou para a emigração.
Fica um Estado ocupado por quem sabe agradar e não por quem sabe fazer.
Há ainda uma perda mais discreta e
talvez mais dolorosa: a dos que estudaram e, chegados ao poder ou perto dele,
esquecem o que aprenderam. Passaram anos a ler, a analisar e a exigir rigor, e
acabam a bajular quem decide, a aplaudir o que sabem estar errado e a
justificar o injustificável. Nem sempre é cinismo puro. É, muitas vezes,
cálculo de sobrevivência num sistema onde a proximidade ao poder garante o
emprego, o contrato ou a promoção. Mas o resultado é devastador, porque o
diploma deixa de servir o país e passa a servir de verniz à obediência. Quando
quem tem formação para criticar escolhe calar ou aplaudir, o poder fica sem
quem lhe diga a verdade e os erros multiplicam-se sem contraditório. Um regime
que premeia a lealdade acaba por fabricar bajuladores, e um país com muitos
diplomados e pouco pensamento livre desperdiça aquilo que investiu a formá-los.
Há quem, perante tudo isto, compare
Angola com os países do hemisfério norte, e a comparação, reconheça-se, nem
sempre é justa. Esses países tiveram séculos para construir instituições,
atravessaram as suas próprias convulsões e continuam longe da perfeição. Mas
seria um erro descartar o gesto como simples deslumbramento. Quem olha para lá
da fronteira e diz que lá isto não aconteceria não está a desprezar o seu país.
Está, muitas vezes, a medir a distância entre o que Angola é e o que poderia
ser. A comparação é imperfeita, mas a inquietação que a move é legítima: é a de
quem não aceita que o anormal passe por normal. Um país que se habitua às suas
anormalidades deixa de as ver, e o que não se vê não se corrige.
Libertar Angola desta lógica não exige
ódio a ninguém. Exige princípios simples: concursos públicos transparentes,
critérios técnicos publicados, protecção de quem discorda e a separação clara
entre Estado e partido. Uma instituição pública pertence ao povo e não ao
partido que a gere em cada momento. Angola tem gente talentosa de sobra.
Falta-lhe o direito de a usar sem pedir licença a ninguém.
O pensamento crítico não é uma ameaça
à nação. É o seu seguro de vida. Os países que prosperam são os que toleram
quem os contraria, porque é aí que se corrigem os erros antes de se tornarem
tragédias. Enquanto a lealdade valer mais do que o saber, estaremos a adiar o
futuro.
