domingo, 16 de agosto de 2026

O teste mais pequeno

Há uma cena que se repete todas as manhãs em milhares de escolas angolanas e que raramente entra nos discursos oficiais: a criança que se senta na carteira sem ter comido nada, ou quase nada, e que passa a manhã a lutar não contra a matéria, mas contra a fome. Não é falta de vontade de aprender. É o corpo a reclamar antes da mente poder trabalhar. No entanto, continuamos a tratar o desempenho escolar como um problema de professores, de currículos, de infra-estruturas. Quando muitas vezes o primeiro obstáculo está no estômago vazio de um aluno de seis, sete ou oito anos.

O Programa de Merenda Escolar, regulamentado ainda ao abrigo do Decreto Presidencial n.º 138/13, tinha como objectivo garantir que a criança permanecesse na escola e que essa permanência se traduzisse em desenvolvimento. Na prática, o programa envelheceu mal. A própria tutela reconheceu, este ano, que a merenda oferecida não continha os nutrientes necessários ao desenvolvimento integral das crianças. Uma admissão que, vinda de quem geriu o programa durante mais de uma década, soa mais a confissão tardia do que a novidade.

Os números confirmam o fosso entre a lei e a mesa. Em anos recentes, a cobertura efectiva ficou muito aquém das metas traçadas. Em certos períodos, pouco mais de 15% dos alunos projectados chegaram a ser efectivamente servidos. O financiamento, por seu lado, era calculado por município e não por aluno, o que tornava a distribuição dos recursos tão cega quanto injusta: um município com mil alunos matriculados recebia, no papel, o mesmo que um com cem.

O novo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), agora em implementação, tenta corrigir estas falhas: financiamento por aluno matriculado, refeição quente em vez de ração seca, supervisão nutricional a cargo de especialistas do Ministério da Saúde, e um compromisso, ainda por cumprir, de comprar alimentos às comunidades agrícolas dos próprios municípios. É um desenho tecnicamente mais maduro. A pergunta que interessa não é se o desenho está certo no papel, mas se o Estado angolano tem o hábito de transformar desenho em rotina.

Há um padrão que atravessa a governação angolana. Trata-se do facto de que o Estado investe generosamente no que se vê e evita sistematicamente o que sustenta o que se vê. Constrói-se o hospital, mas não se resolve o problema do saneamento básico que gera a doença. Anuncia-se o programa de merenda, mas não se constrói a cozinha, não se contrata o nutricionista, não se fiscaliza trimestralmente a cantina escolar como a própria lei exige.

A merenda escolar é, talvez, o teste mais simples, mais pequeno e mais ignorado desta lógica. Não exige tecnologia sofisticada, nem grandes obras. Exige rotina: comprar, cozinhar, servir, verificar, repetir todos os dias durante um ano lectivo inteiro. É precisamente essa rotina, que é pouco fotogénica e sem cerimónia de inauguração, que o Estado angolano historicamente tem dificuldade em sustentar. Há uma tendência antiga na governação pós-colonial: o poder legitima-se pela encenação, não pela função contínua e invisível das instituições. Aquilo que se vê justifica-se a si próprio; aquilo que não se vê é tratado como dispensável, mesmo quando é o que sustenta tudo o resto. A merenda escolar não tem cerimónia de corte de fita. Por isso, é das primeiras coisas a falhar. Vale a pena olhar para dois modelos que resolveram, cada um à sua maneira, o mesmo problema estrutural.

O Brasil oferece o espelho mais próximo por causa da sua língua, da sua história recente de reforma institucional, e duma solução particularmente relevante para Angola: a obrigatoriedade legal de comprar uma parte da merenda à agricultura familiar local. O Programa Nacional de Alimentação Escolar brasileiro tem quase sessenta anos, sobreviveu a mudanças de governo, e transformou a compra da merenda numa política agrícola disfarçada de política educativa, ou seja, o dinheiro da escola acaba por sustentar o pequeno produtor rural.

A Coreia do Sul oferece o espelho aspiracional. Ali, a refeição escolar não é um extra tolerado, é uma rotina de Estado tão sólida quanto o próprio calendário lectivo. Lá existe nutricionista dedicado por escola, cozinha própria a funcionar diariamente, e uma percentagem de compra a produtores regionais. A universalidade retira à merenda qualquer estigma de assistência aos pobres porque toda a criança come, e come bem, porque comer bem faz parte do que significa ir à escola.

Nenhum dos dois modelos é uma cópia possível de aplicar tal e qual a Angola. Mas os dois partilham o mesmo princípio que falta ao desenho angolano: a merenda não é vista como caridade emergencial, é vista como infra-estrutura permanente, tão séria como a estrada ou a rede eléctrica.

O compromisso do novo programa de comprar alimentos às comunidades agrícolas dos municípios é, nesta leitura, o ponto mais promissor e o mais frágil de toda a reforma. Promissor porque, se cumprido, transforma a merenda numa alavanca dupla: alimenta a criança e cria mercado garantido para o pequeno agricultor angolano, historicamente refém de intermediários e de preços instáveis entre províncias. Frágil porque exige exactamente aquilo que o Estado angolano tem historicamente evitado: coordenação sustentada entre ministérios, dados fiáveis sobre produção e preços agrícolas, e fiscalização que não desapareça depois da conferência de imprensa de lançamento.

Sem essa coordenação, a promessa de "comprar local" corre o risco de repetir o destino de tantas outras boas intenções regulamentares (letra morta num decreto), enquanto na prática a merenda continua a chegar tarde, pouco nutritiva, ou simplesmente a não chegar.

Voltemos à criança da abertura. Ela não precisa de um decreto bem escrito, nem de uma cerimónia de lançamento com autoridades e imprensa. Ela precisa de comer, todos os dias, algo que a alimente de verdade. Se o Estado angolano quer medir a sua própria capacidade de cumprir promessas, na lógica das pequenas antes das grandes, dificilmente encontrará um teste mais honesto do que este: olhar para o prato dos nossos pequenos numa escola pública, e perguntar se está cheio, suficientemente nutritivo e enormemente saboroso. 



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