Há uma cena que qualquer angolano reconhece. A fila que não
avança. O funcionário que olha para o ecrã sem ver ninguém. O papel que falta,
o carimbo que não está, o sistema que caiu. E, no fim, a pergunta sussurrada é:
"não há como facilitar?" Estas
quatro palavras resumem a falência de um sistema concebido para gerir cidadãos,
não para os servir.
O mau atendimento nos serviços públicos angolanos não é
acidente. Não é incompetência isolada nem azar estatístico. É o produto
coerente de um Estado que, ao longo de décadas, nunca colocou o cidadão no
centro das suas prioridades. A forma como uma instituição atende as pessoas
revela o que pensa delas. E o que o Estado angolano demonstra, todos os dias,
em hospitais, cartórios, serviços fiscais e repartições diversas, é que o
cidadão é um obstáculo a gerir e não uma pessoa a servir.
De facto, o problema é visível em toda a cadeia de
atendimento. Nos hospitais públicos, doentes aguardam horas por uma consulta de
minutos, sem informação, sem conforto, sem dignidade. Nos serviços fiscais, a
simplicidade de um processo transforma-se em labirinto burocrático que empurra
o contribuinte para o intermediário informal. Nos cartórios e conservatórias,
documentos que deveriam demorar dias arrastam-se por semanas, salvo quando há
quem "agilize". Nos bancos e até em alguns supermercados, a lógica
não é muito diferente: o atendimento é uma concessão, não uma obrigação.
Com efeito, a raiz do problema é múltipla. Em primeiro lugar,
a formação profissional é escassa ou inexistente: muitos funcionários chegam ao
posto de trabalho sem qualquer preparação para lidar com o público, sem noção
de protocolo, sem ferramentas básicas de comunicação. Em segundo lugar, os
salários são frequentemente insuficientes para sustentar a motivação e a
integridade, o que cria terreno fértil para a corrupção de balcão, aquela que
se paga em kwanzas dobrados numa folha de papel. Finalmente, a burocracia foi
desenhada para concentrar poder, não para facilitar o acesso. Cada carimbo é um
ponto de controlo; cada processo demorado é uma oportunidade de extracção.
Todavia, o problema mais profundo não é técnico. Na verdade,
é político. Num sistema com accountability (responsabilização, prestação
de contas), onde os gestores respondem por indicadores e os funcionários por
comportamentos, o mau atendimento tem consequências. Em Angola, raramente as
tem. A impunidade é a norma; a excelência é a excepção.
Ora, é preciso dizer o que poucos dizem com clareza: o
serviço público é, fundamentalmente, um acto político. Quando o Estado investe —ou
não investe — na qualidade do atendimento, está a fazer uma escolha sobre quem
importa. Quando um funcionário trata um cidadão com descaso, está a reproduzir
uma hierarquia que o sistema não pune. Quando alguém com influência ou
contactos passa à frente de uma fila, o Estado confirma que os direitos não são
universais: são negociáveis.
É precisamente esta dimensão política que distingue o mau
atendimento de um simples problema de gestão. Não basta formar funcionários se
o sistema continua a recompensar a opacidade. Não basta digitalizar processos
se a mentalidade institucional permanece a mesma. A mudança real exige uma
decisão política de colocar o cidadão, todos os cidadãos, independentemente de
quem conhecem, no centro do serviço público.
Ainda assim, o pessimismo não é a única resposta disponível.
Existem caminhos concretos, testados noutros contextos africanos, que Angola
pode adaptar com pragmatismo e vontade política.
A digitalização efectiva dos serviços é um dos melhores
pontos de partida. O Ruanda transformou radicalmente a qualidade do seu serviço
público através da desmaterialização de processos, reduzindo o contacto humano
nos pontos de maior corrupção e tornando os procedimentos mensuráveis e
auditáveis. Angola tem investido na digitalização, mas de forma fragmentada e
sem cultura de continuidade. É necessário um compromisso institucional com a
conclusão e manutenção dos sistemas informáticos.
Do mesmo modo, é essencial a formação contínua com avaliação
real. Não os cursos de um dia que não mudam comportamentos, mas programas
estruturados de desenvolvimento de competências, ligados à progressão na
carreira. O funcionário que atende bem deve ser reconhecido; o que atende mal
deve ser responsabilizado. Esta equação parece óbvia e não existe na prática.
Além disso, os mecanismos de reclamação eficazes e protegidos
são indispensáveis. O cidadão que se sente maltratado não tem, hoje, para onde
recorrer com expectativa razoável de resultado. Um sistema de reclamação
anónimo, gerido de forma independente e com resposta obrigatória dentro de
prazos definidos, alteraria o equilíbrio de poder entre o Estado e o cidadão.
Outrossim, a publicação de indicadores de atendimento é
crucial. Aquilo que se mede, melhora. O tempo médio de espera, a taxa de
resolução no primeiro contacto e o índice de satisfação, são dados que tornados
públicos criam pressão para a melhoria e permitem comparação entre instituições
e entre regiões do país.
Nenhuma destas medidas é tecnicamente impossível. O que é
improvável, sem pressão organizada da sociedade civil e da comunicação social,
é que sejam adoptadas com seriedade e sustentadas no tempo.
Assim, a fila que não avança é mais do que um problema
logístico. É uma declaração de intenções. Diz ao cidadão que o seu tempo não
tem valor, que a sua dignidade é negociável, que o acesso a direitos depende de
quem se conhece e não do que se é.
Portanto, Angola tem os recursos, a juventude e o capital
humano para construir instituições que sirvam as pessoas com competência e
respeito. O que falta não é capacidade. O que falta é a vontade política
sustentada e uma cultura de prestação de contas que está ainda por construir.
Enquanto essa cultura não existir, a fila continuará a ser a metáfora mais honesta do Estado angolano.