quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Lealdade antes do saber

Há um sintoma que revela a saúde de um governo ou regime: a forma como escolhe quem dirige. Quando a direcção de uma escola exige mais um cartão de militante do que uma formação pedagógica ou quando a gestão do arquivo histórico de um país é entregue a um aliado político em vez de um técnico formado na área, a conclusão é inevitável. O mérito foi substituído pela obediência.

Isto não é um pormenor administrativo. A escola é o lugar onde se aprende a duvidar, a perguntar e a argumentar. Se quem a dirige deve o lugar à fidelidade partidária, o que se ensina, mesmo sem palavras, é que progredir exige calar. O director que sabe que o cargo depende do partido não protegerá o professor que pensa de forma independente. Protegerá o seu lugar. Assim se forma uma geração que aprende cedo que pensar tem custos e que pertencer compensa.

O arquivo histórico é ainda mais grave. Um arquivo é a memória organizada de uma nação, e a memória é matéria de poder. Quem a controla decide o que se preserva, o que se cataloga e o que se deixa apodrecer numa prateleira. Um técnico de formação responde a normas profissionais que valem independentemente de quem governa. Um aliado político responde a quem o nomeou. Num caso, a história é um património de todos. No outro, torna-se um instrumento de legitimação.

O custo é também económico e social. Um país que desperdiça os seus quadros mais competentes por não terem a cor certa empobrece-se. O engenheiro, a historiadora e o professor preparados e sem filiação são empurrados para a margem, para o silêncio ou para a emigração. Fica um Estado ocupado por quem sabe agradar e não por quem sabe fazer.

Há ainda uma perda mais discreta e talvez mais dolorosa: a dos que estudaram e, chegados ao poder ou perto dele, esquecem o que aprenderam. Passaram anos a ler, a analisar e a exigir rigor, e acabam a bajular quem decide, a aplaudir o que sabem estar errado e a justificar o injustificável. Nem sempre é cinismo puro. É, muitas vezes, cálculo de sobrevivência num sistema onde a proximidade ao poder garante o emprego, o contrato ou a promoção. Mas o resultado é devastador, porque o diploma deixa de servir o país e passa a servir de verniz à obediência. Quando quem tem formação para criticar escolhe calar ou aplaudir, o poder fica sem quem lhe diga a verdade e os erros multiplicam-se sem contraditório. Um regime que premeia a lealdade acaba por fabricar bajuladores, e um país com muitos diplomados e pouco pensamento livre desperdiça aquilo que investiu a formá-los.

Há quem, perante tudo isto, compare Angola com os países do hemisfério norte, e a comparação, reconheça-se, nem sempre é justa. Esses países tiveram séculos para construir instituições, atravessaram as suas próprias convulsões e continuam longe da perfeição. Mas seria um erro descartar o gesto como simples deslumbramento. Quem olha para lá da fronteira e diz que lá isto não aconteceria não está a desprezar o seu país. Está, muitas vezes, a medir a distância entre o que Angola é e o que poderia ser. A comparação é imperfeita, mas a inquietação que a move é legítima: é a de quem não aceita que o anormal passe por normal. Um país que se habitua às suas anormalidades deixa de as ver, e o que não se vê não se corrige.

Libertar Angola desta lógica não exige ódio a ninguém. Exige princípios simples: concursos públicos transparentes, critérios técnicos publicados, protecção de quem discorda e a separação clara entre Estado e partido. Uma instituição pública pertence ao povo e não ao partido que a gere em cada momento. Angola tem gente talentosa de sobra. Falta-lhe o direito de a usar sem pedir licença a ninguém.

O pensamento crítico não é uma ameaça à nação. É o seu seguro de vida. Os países que prosperam são os que toleram quem os contraria, porque é aí que se corrigem os erros antes de se tornarem tragédias. Enquanto a lealdade valer mais do que o saber, estaremos a adiar o futuro.

domingo, 16 de agosto de 2026

O teste mais pequeno

Há uma cena que se repete todas as manhãs em milhares de escolas angolanas e que raramente entra nos discursos oficiais: a criança que se senta na carteira sem ter comido nada, ou quase nada, e que passa a manhã a lutar não contra a matéria, mas contra a fome. Não é falta de vontade de aprender. É o corpo a reclamar antes da mente poder trabalhar. No entanto, continuamos a tratar o desempenho escolar como um problema de professores, de currículos, de infra-estruturas. Quando muitas vezes o primeiro obstáculo está no estômago vazio de um aluno de seis, sete ou oito anos.

O Programa de Merenda Escolar, regulamentado ainda ao abrigo do Decreto Presidencial n.º 138/13, tinha como objectivo garantir que a criança permanecesse na escola e que essa permanência se traduzisse em desenvolvimento. Na prática, o programa envelheceu mal. A própria tutela reconheceu, este ano, que a merenda oferecida não continha os nutrientes necessários ao desenvolvimento integral das crianças. Uma admissão que, vinda de quem geriu o programa durante mais de uma década, soa mais a confissão tardia do que a novidade.

Os números confirmam o fosso entre a lei e a mesa. Em anos recentes, a cobertura efectiva ficou muito aquém das metas traçadas. Em certos períodos, pouco mais de 15% dos alunos projectados chegaram a ser efectivamente servidos. O financiamento, por seu lado, era calculado por município e não por aluno, o que tornava a distribuição dos recursos tão cega quanto injusta: um município com mil alunos matriculados recebia, no papel, o mesmo que um com cem.

O novo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), agora em implementação, tenta corrigir estas falhas: financiamento por aluno matriculado, refeição quente em vez de ração seca, supervisão nutricional a cargo de especialistas do Ministério da Saúde, e um compromisso, ainda por cumprir, de comprar alimentos às comunidades agrícolas dos próprios municípios. É um desenho tecnicamente mais maduro. A pergunta que interessa não é se o desenho está certo no papel, mas se o Estado angolano tem o hábito de transformar desenho em rotina.

Há um padrão que atravessa a governação angolana. Trata-se do facto de que o Estado investe generosamente no que se vê e evita sistematicamente o que sustenta o que se vê. Constrói-se o hospital, mas não se resolve o problema do saneamento básico que gera a doença. Anuncia-se o programa de merenda, mas não se constrói a cozinha, não se contrata o nutricionista, não se fiscaliza trimestralmente a cantina escolar como a própria lei exige.

A merenda escolar é, talvez, o teste mais simples, mais pequeno e mais ignorado desta lógica. Não exige tecnologia sofisticada, nem grandes obras. Exige rotina: comprar, cozinhar, servir, verificar, repetir todos os dias durante um ano lectivo inteiro. É precisamente essa rotina, que é pouco fotogénica e sem cerimónia de inauguração, que o Estado angolano historicamente tem dificuldade em sustentar. Há uma tendência antiga na governação pós-colonial: o poder legitima-se pela encenação, não pela função contínua e invisível das instituições. Aquilo que se vê justifica-se a si próprio; aquilo que não se vê é tratado como dispensável, mesmo quando é o que sustenta tudo o resto. A merenda escolar não tem cerimónia de corte de fita. Por isso, é das primeiras coisas a falhar. Vale a pena olhar para dois modelos que resolveram, cada um à sua maneira, o mesmo problema estrutural.

O Brasil oferece o espelho mais próximo por causa da sua língua, da sua história recente de reforma institucional, e duma solução particularmente relevante para Angola: a obrigatoriedade legal de comprar uma parte da merenda à agricultura familiar local. O Programa Nacional de Alimentação Escolar brasileiro tem quase sessenta anos, sobreviveu a mudanças de governo, e transformou a compra da merenda numa política agrícola disfarçada de política educativa, ou seja, o dinheiro da escola acaba por sustentar o pequeno produtor rural.

A Coreia do Sul oferece o espelho aspiracional. Ali, a refeição escolar não é um extra tolerado, é uma rotina de Estado tão sólida quanto o próprio calendário lectivo. Lá existe nutricionista dedicado por escola, cozinha própria a funcionar diariamente, e uma percentagem de compra a produtores regionais. A universalidade retira à merenda qualquer estigma de assistência aos pobres porque toda a criança come, e come bem, porque comer bem faz parte do que significa ir à escola.

Nenhum dos dois modelos é uma cópia possível de aplicar tal e qual a Angola. Mas os dois partilham o mesmo princípio que falta ao desenho angolano: a merenda não é vista como caridade emergencial, é vista como infra-estrutura permanente, tão séria como a estrada ou a rede eléctrica.

O compromisso do novo programa de comprar alimentos às comunidades agrícolas dos municípios é, nesta leitura, o ponto mais promissor e o mais frágil de toda a reforma. Promissor porque, se cumprido, transforma a merenda numa alavanca dupla: alimenta a criança e cria mercado garantido para o pequeno agricultor angolano, historicamente refém de intermediários e de preços instáveis entre províncias. Frágil porque exige exactamente aquilo que o Estado angolano tem historicamente evitado: coordenação sustentada entre ministérios, dados fiáveis sobre produção e preços agrícolas, e fiscalização que não desapareça depois da conferência de imprensa de lançamento.

Sem essa coordenação, a promessa de "comprar local" corre o risco de repetir o destino de tantas outras boas intenções regulamentares (letra morta num decreto), enquanto na prática a merenda continua a chegar tarde, pouco nutritiva, ou simplesmente a não chegar.

Voltemos à criança da abertura. Ela não precisa de um decreto bem escrito, nem de uma cerimónia de lançamento com autoridades e imprensa. Ela precisa de comer, todos os dias, algo que a alimente de verdade. Se o Estado angolano quer medir a sua própria capacidade de cumprir promessas, na lógica das pequenas antes das grandes, dificilmente encontrará um teste mais honesto do que este: olhar para o prato dos nossos pequenos numa escola pública, e perguntar se está cheio, suficientemente nutritivo e enormemente saboroso. 



sexta-feira, 31 de julho de 2026

Soberania Digital versus Soberania Retórica

 

Angola gosta de falar de transformação digital. Fala-se dela nos discursos de investidura, nos relatórios de contas do sector empresarial público, nos comunicados de bolsa. Fala-se dela, sobretudo, quando tudo funciona. O problema começa quando deixa de funcionar, e é aí que se descobre que aquilo a que chamávamos "transformação digital" era, em boa parte, um vocabulário. Não uma capacidade.

Na madrugada de 28 de Julho, a Unitel, maior operadora de telecomunicações do país, com mais de 20 milhões de clientes e 76% de quota de mercado, sofreu um ataque cibernético à sua infra-estrutura tecnológica. Voz, dados móveis e internet caíram em simultâneo, em todo o território nacional, precisamente na véspera da sua estreia na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (Bodiva). Mais de vinte e quatro horas depois, o interior do país continuava sem comunicações plenas.

O comunicado da empresa foi um exercício de linguagem administrativa: "mecanismos de resposta e contenção foram imediatamente activados", "equipas técnicas e de cibersegurança mobilizadas", serviços "condicionados" a caminho da "normalização integral". Não se disse uma só palavra sobre a origem do ataque e a natureza da intrusão. Mais grave ainda, não se disse se houve exposição de dados de milhões de clientes. Passaram-se 24 horas sem que o país soubesse, por via oficial, absolutamente nada sobre o que na prática o atingiu.

Foi por outra via. Segundo fontes do Maka Angola, jornal online de jornalismo de investigação, a própria liderança executiva da Unitel está, nos bastidores, à espera da chegada urgente de especialistas estrangeiros, porque a empresa não dispõe de capacidade interna para repor os seus próprios sistemas. A origem desses especialistas e a data da sua chegada foram mantidas sob reserva. Como escreveu Rafael Marques, o silêncio institucional "não protege o país", apenas oculta, por mais tempo, uma fragilidade que um agressor competente já conhece por experiência própria.

É aqui que a história deixa de ser sobre uma operadora e passa a ser sobre o Estado. Porque o que ficou exposto em 28 de Julho não foi apenas uma falha técnica da Unitel: foi o fosso entre a soberania digital que Angola diz ter e a soberania retórica que na verdade pratica.

Soberania digital significa capacidade instalada: equipas nacionais de resposta a incidentes, protocolos de auditoria permanentes às infra-estruturas críticas, legislação que obrigue à notificação pública e atempada de violações, quadros técnicos formados e retidos dentro do país. Soberania retórica é outra coisa. É a produção de comunicados que parecem controlo, discursos que invocam "prioridade máxima" e "transparência", enquanto a resolução real do problema depende de um telefonema para fora e da boa vontade de quem responde do outro lado. Uma nação pode ter a segunda sem ter a primeira durante anos, porque a segunda não exige nada: nem investimento, nem formação, nem prestação de contas. Exige apenas um comunicado bem escrito.

Gramsci, intelectual italiano, chamaria a isto uma forma de hegemonia às avessas: não a de um Estado que impõe a sua visão do mundo, mas a de um Estado que terceiriza, silenciosamente, a própria capacidade de se defender e depois usa o silêncio para preservar a ilusão de que essa terceirização nunca aconteceu. Mbembe, intelectual camaronês, descreveria bem esta figura do poder que encena o controlo precisamente quando esse controlo já lhe escapou das mãos. Não é a primeira vez que o vemos em Angola. Vimo-lo nos semáforos preparados para visita papal, vemo-lo nos comunicados que gerem a percepção antes de gerir o problema. A diferença, desta vez, é que o problema tem uma dimensão de segurança nacional que os outros não tinham.

Porque a questão que importa fazer não é apenas "o que aconteceu à Unitel"?. É: quantas outras infra-estruturas críticas do país — banca, energia, água, serviços públicos digitalizados, o próprio sistema de pagamentos que hoje sustenta o comércio quotidiano — dependeriam, num cenário semelhante, da mesma solução de recurso? Quantas teriam de esperar por um voo de especialistas estrangeiros para voltarem a funcionar? E o que significa, em termos de política externa e de segurança, que essa dependência exista sem que nunca tenha sido publicamente reconhecida, avaliada ou planeada?

E esta dependência não nasceu no dia 28 de Julho. Ela é a consequência previsível de décadas de um sistema educativo que nunca fez da formação técnica e científica uma prioridade real. Não se improvisa um especialista em cibersegurança em resposta a uma crise. Um especialista forma-se ao longo de anos, através de um ensino técnico sólido, de universidades com laboratórios e ligação à indústria, de currículos que levem a sério a matemática, a informática e a engenharia desde o ensino de base. Angola continua a formar, em números insuficientes, os quadros de que precisaria de ter internamente para responder a este tipo de ataque, e por isso, quando a crise chega, o reflexo natural é procurar lá fora quem o país não formou cá dentro. A "importação" de especialistas estrangeiros para salvar a Unitel é, neste sentido, a mesma lógica que já vimos noutros domínios: a de uma economia do saber que prefere importar competência pronta a investir na sua produção interna. Não há soberania digital possível sem uma reforma séria da educação técnica e científica; tudo o resto (centros de resposta, legislação, auditorias) depende, no fim, de haver angolanos formados para os operar.

O silêncio da Unitel não é um incidente de comunicação corporativa. É a amostra mais recente de um padrão mais antigo: o de tratar a transparência como risco reputacional em vez de a tratar como instrumento de defesa nacional. Um agressor que já testou as defesas de Angola e viu chegar ajuda de fora sabe hoje mais sobre a real capacidade do país do que o próprio cidadão angolano, a quem se pediu e se tem pedido apenas paciência.

Se há uma lição a reter deste episódio, é que a soberania não se declara, constrói-se, testa-se e, quando falha, precisa de ser admitida publicamente para poder ser corrigida. Angola tem, hoje, a oportunidade de transformar este ataque num ponto de viragem: criar um centro nacional de resposta a incidentes com autoridade e recursos reais, impor obrigações legais de notificação de violações às infra-estruturas críticas, investir na formação e retenção de quadros nacionais em cibersegurança como política de Estado, não como resposta de pânico à próxima crise. A alternativa é continuar a confundir o comunicado com a solução, e descobrir, da próxima vez, que o preço do silêncio já não se paga apenas em horas de rede indisponível.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Modernidade em colapso. O apagão da Unitel e as fragilidades da modernização angolana


 

Na madrugada de terça-feira, 28 de Julho, pelas 2h20, a rede da Unitel colapsou em todo o território nacional. Voz, dados móveis, internet, em suma, tudo parou para mais de vinte milhões de clientes, numa operadora que serve 76% do mercado angolano.

A empresa falou de um "ataque cibernético". O detalhe que importa não é técnico, mas sim temporal. O apagão aconteceu poucas horas depois de a BODIVA anunciar que a Oferta Pública de Venda (OPV) da Unitel tinha sido um sucesso, com uma procura de 120% acima da oferta, mais de onze mil novos accionistas. Entre o comunicado de glória e a estreia em bolsa, o país ficou às escuras.

Não sabemos, e talvez nunca se saiba com certeza pública, quem esteve por trás do ataque. Nos comunicados oficiais sobre o incidente, a Unitel não identificou publicamente qualquer autor ou suspeito, falou apenas em "ataque cibernético” à sua infra-estrutura tecnológica. Contudo, a coincidência de calendário, ainda que não prove autoria nem intenção, expõe com uma nitidez rara quatro fragilidades que a euforia da privatização preferiu não discutir.

Num primeiro momento, o processo de privatização da Unitel foi narrado, do primeiro ao último comunicado, na linguagem dos mercados: avaliação entre 1,7 e 1,9 mil milhões de euros, preço por acção, encaixe de quase 300 milhões de euros para o Estado, subscrição recorde. É a linguagem correcta para uma IPO (Oferta Pública Inicial). Todavia, a Unitel não é apenas uma empresa cotada, é a espinha dorsal das comunicações de um país de quase 40 milhões de pessoas. Quando a infra-estrutura que liga hospitais, bancos, forças de segurança e famílias inteiras é discutida sobretudo como instrumento de encaixe orçamental, cria-se um ponto cego previsível, isto é, ninguém pergunta, com a mesma insistência com que se pergunta pelo preço da acção, quão resiliente é o sistema que está a ser vendido. É um mecanismo que Gramsci, intelectual italiano, ajudaria a nomear. Para ele, o poder de uma classe dominante não se sustenta apenas pela força, mas pelo consentimento fabricado através da sociedade civil (media, educação, instituições culturais) que naturaliza uma determinada leitura da realidade como a única razoável. Nas últimas semanas, a cobertura noticiosa e institucional do IPO cumpriu, sem intenção deliberada, essa função. Repetiu à exaustão os números da subscrição e da avaliação, e praticamente nunca formulou, com igual insistência, a pergunta sobre resiliência técnica. Não por censura, pelo contrário, o enquadramento de mercado impôs-se como o único enquadramento relevante.

Em segundo lugar, Angola tem uma tendência recorrente de celebrar o gesto simbólico da modernização mais depressa do que consolida a substância que o gesto deveria representar. A entrada da Unitel em bolsa foi apresentada como prova de maturidade do mercado de capitais angolano, o "maior IPO de sempre" num mercado que, até agora, só continha bancos e uma seguradora. É um marco genuíno. No entanto, um apagão nacional horas depois do anúncio de sucesso é o tipo de contraste que desmonta a narrativa antes mesmo de ela se instalar. Assim, celebra-se a entrada em bolsa como símbolo de solidez institucional, enquanto a rede física que sustenta essa mesma empresa cai por terra. É uma tensão que ecoa algo que Mbembe, intelectual camaronês, descreveu a propósito do exercício do poder na era pós-colonial — com as devidas adaptações e paralelismos. Para ele, o poder sustenta-se muitas vezes por uma teatralidade, pela encenação e pelo espectáculo, por vezes desligada da capacidade concreta que devia sustentá-la. Mbembe escrevia sobretudo sobre o exercício autoritário do poder político; aqui, a analogia desloca-se para o poder económico-institucional, mas a estrutura do problema é semelhante, isto é, celebra-se o gesto que anuncia modernidade, sem que a modernidade anunciada esteja, de facto, construída.

A terceira fragilidade diz respeito aos mais de onze mil novos accionistas, muitos deles pequenos investidores particulares que nunca tinham comprado acções antes, e agora estão expostos a um risco que nunca lhes foi explicado. Nenhum prospecto, por mais robusto que seja no plano financeiro, costuma comunicar em linguagem acessível o risco cibernético como risco material do negócio. Isto não é uma falha exclusivamente angolana, pelo contrário, é uma lacuna comum a mercados de capitais em todo o mundo, onde a due diligence de segurança da informação ainda é tratada como nota de rodapé técnica, e não como risco de primeira linha equivalente ao risco cambial ou regulatório. Mas, num mercado emergente como o angolano, onde a poupança popular está a dar os primeiros passos rumo à bolsa, o custo de reputação de um incidente destes é desproporcionalmente alto, arriscando-se a converter o primeiro contacto de milhares de angolanos com o mercado accionista numa lição de desconfiança, em vez de numa lição de participação económica.

A quarta fragilidade é mais estrutural. Uma operadora com 76% de quota de mercado não é apenas dominante, é um ponto único de falha para um país inteiro. Quando um único actor concentra esta fatia da infra-estrutura de comunicações, qualquer incidente, seja ataque externo, falha técnica ou sabotagem, deixa de ser um problema de uma empresa e passa a ser um problema nacional. Esta concentração agrava-se com uma dependência adicional, menos visível: a de capacidade técnica para responder a um incidente deste tipo. Fanon, intelectual martinicano/antilhano-francês, ao analisar as "armadilhas da consciência nacional", descrevia o risco de uma elite ou burguesia nacional pós-independência que, em vez de construir capacidade produtiva própria, se limita ao papel de intermediária entre o país e capitais e infra-estruturas externas. Neste caso, o que está em causa é o know-how angolano, a soberania digital angolana e o risco de importação passiva de infra-estrutura digital. Portanto, se a resposta a incidentes como este continuar a depender de capacidade técnica e de segurança cibernética predominantemente externa, o país replica, no domínio digital, a posição de intermediário que Fanon via como armadilha, e não como emancipação. O apagão da Unitel materializou-se como esse risco, em tempo real. Um país inteiro depender da resiliência de uma única rede já seria motivo de preocupação. Que isso aconteça precisamente quando essa rede se torna também um activo bolsista de milhares de famílias, é o que transforma o risco estrutural em urgência imediata.

Nenhuma destas quatro fragilidades exige que se acredite em conspiração para ser levada a sério. Mesmo lida na versão mais inocente (um ataque genuinamente externo, sem qualquer ligação premeditada à data do IPO), a coincidência funcionou como teste de stress involuntário, e revelou o que o processo de privatização não tinha previsto perguntar. Se a bolsa angolana quer atrair mais empresas de infra-estrutura crítica, como nos sectores de energia, água e transportes, nos próximos anos, este episódio devia tornar-se caso de estudo obrigatório nos próximos prospectos. Nesse sentido, é sempre recomendável exigir auditorias de segurança cibernética como condição de admissão à negociação, comunicar os riscos tecnológicos em linguagem acessível ao pequeno investidor, e tratar a resiliência da infra-estrutura com o mesmo rigor com que se trata o preço da acção.

No final, a modernização económica que Angola procura não se mede apenas pelo volume de subscrição de um IPO, mede-se, também, pela capacidade de a rede continuar de pé no dia seguinte à glória.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

O Parque de Ciência e Tecnologia - Um marco que só vale se for cuidado

 

O Chefe de Estado, João Manuel Gonçalves Lourenço, inaugurou hoje, em Luanda, o Parque de Ciência e Tecnologia. Um investimento de 100 milhões de dólares financiado em 90% pelo Banco Africano de Desenvolvimento. Trata-se de uma conquista real.

Depois de anos de obras, o país passa a ter, finalmente, um espaço pensado para acolher investigação científica, incubação de empresas e formação técnica de alto nível. É justo reconhecer o que isto representa. O caminho para o desenvolvimento faz-se caminhando, e este é, sem dúvida, um passo dado.

Um parque de ciência e tecnologia não é, nem deve ser, apenas um conjunto de edifícios modernos com boa arquitectura. É, ou deveria ser, o ponto de encontro entre quem investiga, quem ensina, quem aprende e quem cria riqueza a partir do conhecimento. É aqui que um país como Angola, ainda excessivamente dependente do petróleo, pode começar a construir alternativas reais: start-ups tecnológicas, soluções agrícolas adaptadas ao nosso clima, respostas de saúde pública pensadas a partir da nossa realidade, e não importadas de contextos que pouco se parecem com o nosso.

A importância deste projecto mede-se, por isso, em várias dimensões. Primeiro, a dimensão económica: um espaço de incubação de empresas é uma fábrica de emprego qualificado, numa altura em que milhares de jovens angolanos terminam o ensino superior sem perspectiva clara de absorção no mercado de trabalho. Segundo, a dimensão científica: laboratórios e centros de investigação a funcionar a sério podem travar a fuga de quadros que, durante anos, viram no estrangeiro a única forma de continuar a investigar com condições. Terceiro, a dimensão simbólica: mostra-se ao país, e sobretudo aos mais jovens, que ciência e tecnologia não são um luxo de outros povos, mas um caminho possível também para um angolano nascido em Cabinda, no Kwanza-Sul ou no Cunene.

Para que este parque cumpra a sua função, a ligação com as universidades angolanas, a Agostinho Neto à cabeça, dada a proximidade física do projecto, mas não só, não pode ser um detalhe protocolar mencionado no discurso de inauguração e esquecido depois. Tem de ser estrutural. Isto significa bolsas de investigação geridas com critério e transparência, professores universitários com tempo e incentivo para investigar dentro do parque, e estudantes finalistas com acesso real aos laboratórios e não apenas a visitas guiadas de meia hora.

Significa também abrir as portas a quem já produz conhecimento fora dos circuitos oficiais, por exemplo, os jovens que programam por conta própria, os inventores informais, os engenheiros que resolvem problemas todos os dias com os recursos limitados que têm. Um parque de ciência que dialogue apenas com a academia institucional, e ignore o talento disperso pelo país, estará a desperdiçar metade do seu potencial.

Dito isto, e precisamente porque o projecto merece ser levado a sério, é preciso fazer um aviso que a experiência recente do país torna incontornável: Angola tem um historial preocupante de infra-estruturas inauguradas com pompa e, poucos anos depois, devolvidas ao abandono por falta de manutenção. Vimo-lo em hospitais, em centros culturais, em equipamentos desportivos e em sistemas informáticos comprados a peso de ouro e nunca actualizados. A inauguração de hoje não pode juntar-se a essa lista.

A manutenção de um parque tecnológico não é um custo residual a cortar no primeiro aperto orçamental. É a condição da sua própria existência. Equipamento de laboratório descalibrado, servidores sem actualização de segurança, redes de internet instáveis ou edifícios climatizados que deixam de o ser tornam qualquer parque de ciência, por mais moderno que tenha sido no dia da inauguração, num espaço inútil ao fim de poucos anos. E o custo de recuperar um equipamento abandonado é, quase sempre, superior ao custo de o manter em funcionamento contínuo.

Por isso, este artigo defende três compromissos concretos que deveriam acompanhar, desde já, esta inauguração. Primeiro, um orçamento de manutenção plurianual, público e fiscalizável, que não dependa da boa vontade do orçamento geral do Estado de cada ano. Segundo, uma gestão técnica do parque com autonomia suficiente para tomar decisões rápidas sobre equipamento e pessoal, livre da burocracia que asfixia tantas outras instituições públicas angolanas. Terceiro, indicadores de desempenho públicos e revistos anualmente, tais como, quantas patentes, quantas start-ups, quantos empregos, quantos artigos científicos. Tudo isto, para que o parque preste contas à sociedade que o financiou, através de um empréstimo que terá de ser pago.

Se estas condições forem cumpridas, os frutos podem mesmo chegar à sociedade, e não ficar presos num relatório institucional arquivado. Falamos de soluções tecnológicas pensadas para problemas genuinamente angolanos: desde a gestão da água em zonas rurais até sistemas de saúde digital adaptados às nossas infra-estruturas, de empregos qualificados que retêm em Angola talento que hoje emigra, e de uma cultura científica que comece, finalmente, a instalar-se fora dos discursos oficiais e dentro da vida quotidiana das pessoas.

O caminho para o desenvolvimento faz-se caminhando, sim. Mas também se faz cuidando do caminho que já foi aberto. A inauguração de hoje é motivo de satisfação genuína. A vigilância sobre o que acontece a este parque nos próximos dez anos é que vai determinar se foi, de facto, um marco ou apenas mais uma fotografia bonita na história recente do país.


terça-feira, 16 de junho de 2026

Angola, o que fizeste às tuas crianças?

Em 16 de Junho de 1976, estudantes de Soweto marcharam contra a imposição do afrikaans como língua de ensino. A polícia do apartheid respondeu com balas. Hector Pieterson tinha treze anos quando caiu. A sua morte, fotografada por Sam Nzima, transformou-se num dos gritos mais audíveis do século XX. Cinquenta anos depois, o continente africano instituiu esse dia como festa. Angola celebra-o. Haverá discursos. Haverá crianças com balões coloridos em frente a câmaras de televisão. E no dia seguinte, tudo ficará exactamente como estava.

Mas este artigo não é uma festa. É uma interpelação.

Angola tem, oficialmente, uma taxa de escolarização primária superior a 80%. O número impressiona quem não visita as escolas. Quem as visita encontra turmas de oitenta alunos partilhando dez manuais, professores a leccionarem dois turnos por falta de pessoal, e crianças sentadas em chão de terra porque os bancos nunca chegaram. A escolarização registada não é sinónimo de aprendizagem realizada.

O Governo angolano gasta em educação uma fracção residual do orçamento do Estado comparada com o que gasta em segurança, em protocolo presidencial e em serviço da dívida externa. Uma criança nascida hoje em Luanda tem menos probabilidade de completar o ensino secundário com competências de leitura e matemática funcionais do que uma criança nascida em Ruanda, no Quénia ou em Cabo Verde, países com PIB per capita inferior ao angolano. A riqueza existe. A vontade política, essa, não tem data de chegada.

Perguntem a qualquer criança do Sambizanga, do Cazenga ou do Lubango o que sonha ser. Médica. Engenheiro. Professora. Advogado. Agora perguntem ao Estado se está disposto a investir nesse sonho com a mesma energia com que inaugura estádios e pavilhões que nenhuma dessas crianças algum dia utilizará. A resposta encontra-se nos relatórios do UNICEF, do Banco Mundial e no próprio Instituto Nacional de Estatísticas, desde que se tenha coragem de os ler sem os arquivar.

Angola regista uma das taxas de mortalidade infantil mais elevadas do mundo. Crianças morrem de malária, de diarreia, de desnutrição, de doenças que o século XXI já sabe curar. Morrem não por falta de solução técnica, mas por falta de vontade de chegar a quem precisa.

Os hospitais existem. Alguns são novos, recentes, inaugurados com pompa ministerial e fotografias de capa. Mas os medicamentos faltam. As ambulâncias estão imobilizadas. O enfermeiro está sozinho numa maternidade que deveria ter oito. A mãe que chegou de madrugada, a pé, vinte quilómetros, com uma criança com febre a quarenta graus, é recebida com uma lista de material que tem de trazer ela própria: luvas, algodão, soro. O Estado inaugurou o edifício. O Estado não inaugurou o cuidado.

Cada criança que morre de cólera é uma acusação directa à decisão de não construir saneamento básico. Cada criança desnutrida no sul do país é uma acusação directa à decisão de não diversificar a economia nem apoiar a agricultura familiar. Não são tragédias. São escolhas orçamentais com rostos pequenos.

Em Angola, a criança que não está numa sala de aula deteriorada está, muitas vezes, a trabalhar. Vende água nos cruzamentos de Luanda. Carrega sacos no mercado do Catinton. Cuida dos irmãos mais novos enquanto os pais procuram sobrevivência. Nas zonas rurais, trabalha a terra. Nas minas ilegais do Leste e do Centro-Sul, arrisca a vida por uma pedra que valerá, para outros, o que ela jamais verá.

O trabalho infantil em Angola não é residual. É estrutural. É a resposta de famílias sem rede de protecção social a uma economia que as excluiu. O Governo criminaliza os sintomas (o garimpeiro jovem, o vendedor miúdo) sem jamais processar a causa: a ausência de políticas que tornem possível a uma família sobreviver sem mobilizar os seus filhos como força de trabalho.

Uma criança que trabalha não está a escolher. Está a ser escolhida pela pobreza que o Estado não quis combater com a mesma determinação com que combate a dissidência.

Hoje, representantes do Estado pronunciarão palavras bonitas. Citarão a Convenção sobre os Direitos da Criança, que Angola ratificou. Exibirão números de matrículas. Anunciarão programas com nomes novos e verbas indefinidas. Falarão do novo programa da merenda escola, e quando a sessão terminar, os problemas que matam, que embrutecem e que roubam o futuro das crianças angolanas continuarão exactamente onde estavam.

O que se exige não é retórica. É responsabilidade. É que o orçamento do Estado reflicta a prioridade que se proclama nos discursos. É que cada hospital tenha medicamentos antes de ter placa comemorativa. É que cada escola tenha professores pagos a tempo, livros suficientes e instalações sanitárias básicas. É que os sistemas de protecção social cheguem às famílias vulneráveis antes que as crianças dessas famílias sejam forçadas a abandonar a sala de aula para alimentar os irmãos.

Angola não é um país pobre. Angola é um país com petróleo, com diamantes, com terras raras, com terra fértil, com uma abundante costa marítima, com recursos que nações sem nada disto invejam. A pobreza das crianças angolanas não é um destino geográfico. É uma consequência política. É o resultado de décadas de governação que privilegiou a acumulação de uma elite sobre o investimento no capital humano da nação.

Hector Pieterson morreu porque um regime decidiu que certas crianças não mereciam educação na sua própria língua. As crianças angolanas de hoje não são mortas por balas de polícia. São mortas por orçamentos que as ignoram, por sistemas que as excluem, por uma governação que as menciona em discursos e as esquece em decretos.

A diferença entre Soweto 1976 e Angola 2026 é que a arma mudou de forma. A violência tornou-se administrativa.

Nenhum país se constrói ignorando metade da sua população. E a infância não é uma fase de espera, é a fundação de tudo o que um país pode vir a ser. Angola escolhe todos os dias o que faz com essa fundação. Enquanto a escolha for a indiferença disfarçada de celebração, o Dia da Criança Africana será, em Angola, apenas mais uma efeméride.

Portanto, parem de falar das crianças nos discursos e comecem a governar para elas.


sexta-feira, 29 de maio de 2026

O descaso como sistema

Há uma cena que qualquer angolano reconhece. A fila que não avança. O funcionário que olha para o ecrã sem ver ninguém. O papel que falta, o carimbo que não está, o sistema que caiu. E, no fim, a pergunta sussurrada é: "não há como facilitar?"  Estas quatro palavras resumem a falência de um sistema concebido para gerir cidadãos, não para os servir.

O mau atendimento nos serviços públicos angolanos não é acidente. Não é incompetência isolada nem azar estatístico. É o produto coerente de um Estado que, ao longo de décadas, nunca colocou o cidadão no centro das suas prioridades. A forma como uma instituição atende as pessoas revela o que pensa delas. E o que o Estado angolano demonstra, todos os dias, em hospitais, cartórios, serviços fiscais e repartições diversas, é que o cidadão é um obstáculo a gerir e não uma pessoa a servir.

De facto, o problema é visível em toda a cadeia de atendimento. Nos hospitais públicos, doentes aguardam horas por uma consulta de minutos, sem informação, sem conforto, sem dignidade. Nos serviços fiscais, a simplicidade de um processo transforma-se em labirinto burocrático que empurra o contribuinte para o intermediário informal. Nos cartórios e conservatórias, documentos que deveriam demorar dias arrastam-se por semanas, salvo quando há quem "agilize". Nos bancos e até em alguns supermercados, a lógica não é muito diferente: o atendimento é uma concessão, não uma obrigação.

Com efeito, a raiz do problema é múltipla. Em primeiro lugar, a formação profissional é escassa ou inexistente: muitos funcionários chegam ao posto de trabalho sem qualquer preparação para lidar com o público, sem noção de protocolo, sem ferramentas básicas de comunicação. Em segundo lugar, os salários são frequentemente insuficientes para sustentar a motivação e a integridade, o que cria terreno fértil para a corrupção de balcão, aquela que se paga em kwanzas dobrados numa folha de papel. Finalmente, a burocracia foi desenhada para concentrar poder, não para facilitar o acesso. Cada carimbo é um ponto de controlo; cada processo demorado é uma oportunidade de extracção.

Todavia, o problema mais profundo não é técnico. Na verdade, é político. Num sistema com accountability (responsabilização, prestação de contas), onde os gestores respondem por indicadores e os funcionários por comportamentos, o mau atendimento tem consequências. Em Angola, raramente as tem. A impunidade é a norma; a excelência é a excepção.

Ora, é preciso dizer o que poucos dizem com clareza: o serviço público é, fundamentalmente, um acto político. Quando o Estado investe —ou não investe — na qualidade do atendimento, está a fazer uma escolha sobre quem importa. Quando um funcionário trata um cidadão com descaso, está a reproduzir uma hierarquia que o sistema não pune. Quando alguém com influência ou contactos passa à frente de uma fila, o Estado confirma que os direitos não são universais: são negociáveis.

É precisamente esta dimensão política que distingue o mau atendimento de um simples problema de gestão. Não basta formar funcionários se o sistema continua a recompensar a opacidade. Não basta digitalizar processos se a mentalidade institucional permanece a mesma. A mudança real exige uma decisão política de colocar o cidadão, todos os cidadãos, independentemente de quem conhecem, no centro do serviço público.

Ainda assim, o pessimismo não é a única resposta disponível. Existem caminhos concretos, testados noutros contextos africanos, que Angola pode adaptar com pragmatismo e vontade política.

A digitalização efectiva dos serviços é um dos melhores pontos de partida. O Ruanda transformou radicalmente a qualidade do seu serviço público através da desmaterialização de processos, reduzindo o contacto humano nos pontos de maior corrupção e tornando os procedimentos mensuráveis e auditáveis. Angola tem investido na digitalização, mas de forma fragmentada e sem cultura de continuidade. É necessário um compromisso institucional com a conclusão e manutenção dos sistemas informáticos.

Do mesmo modo, é essencial a formação contínua com avaliação real. Não os cursos de um dia que não mudam comportamentos, mas programas estruturados de desenvolvimento de competências, ligados à progressão na carreira. O funcionário que atende bem deve ser reconhecido; o que atende mal deve ser responsabilizado. Esta equação parece óbvia e não existe na prática.

Além disso, os mecanismos de reclamação eficazes e protegidos são indispensáveis. O cidadão que se sente maltratado não tem, hoje, para onde recorrer com expectativa razoável de resultado. Um sistema de reclamação anónimo, gerido de forma independente e com resposta obrigatória dentro de prazos definidos, alteraria o equilíbrio de poder entre o Estado e o cidadão.

Outrossim, a publicação de indicadores de atendimento é crucial. Aquilo que se mede, melhora. O tempo médio de espera, a taxa de resolução no primeiro contacto e o índice de satisfação, são dados que tornados públicos criam pressão para a melhoria e permitem comparação entre instituições e entre regiões do país.

Nenhuma destas medidas é tecnicamente impossível. O que é improvável, sem pressão organizada da sociedade civil e da comunicação social, é que sejam adoptadas com seriedade e sustentadas no tempo.

Assim, a fila que não avança é mais do que um problema logístico. É uma declaração de intenções. Diz ao cidadão que o seu tempo não tem valor, que a sua dignidade é negociável, que o acesso a direitos depende de quem se conhece e não do que se é.

Portanto, Angola tem os recursos, a juventude e o capital humano para construir instituições que sirvam as pessoas com competência e respeito. O que falta não é capacidade. O que falta é a vontade política sustentada e uma cultura de prestação de contas que está ainda por construir.

Enquanto essa cultura não existir, a fila continuará a ser a metáfora mais honesta do Estado angolano. 

terça-feira, 26 de maio de 2026

O prato vazio: fome e falhas na escola angolana

 “A merenda escolar em Angola não é um benefício. É um dever do Estado e uma questão de soberania sobre o futuro do país.”

Há uma criança em Angola que acorda antes do sol, percorre quilómetros a pé para chegar à escola e senta-se numa carteira com o estômago vazio. Ela ouvirá a lição ou tentará. Contudo, o que o professor diz compete, em silêncio, com o rugido das tripas. De facto, esta não é uma imagem poética. É, antes, uma estatística com rosto na imensidão territorial de Angola.

Angola é um país com petróleo, diamantes e uma dívida de gratidão histórica para com as suas crianças.  Ainda assim, a merenda escolar, esse gesto elementar de colocar um prato de comida diante de quem vai aprender, continua a ser, no nosso contexto, uma promessa frágil, intermitente e, por vezes, desviada antes de chegar ao destino.

Além disso, a relação entre nutrição e desenvolvimento cognitivo está fartamente documentada. Com efeito, crianças que não consomem calorias suficientes nas primeiras horas do dia apresentam défices mensuráveis de atenção, memória de curto prazo e capacidade de resolução de problemas. Segundo a OMS e a UNICEF, a desnutrição crónica na infância é responsável por perdas irreversíveis no quociente intelectual e na produtividade adulta. Trata-se de um ciclo de pobreza que começa na marmita que ficou vazia.

Ademais, em Angola, dados recentes do Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) apontam para taxas preocupantes de insegurança alimentar, particularmente nas zonas rurais, onde a escola pública é muitas vezes o único espaço de mediação entre a criança e o Estado. Não aproveitar esse espaço para garantir pelo menos uma refeição diária é, por conseguinte, um desperdício civilizacional.

Não se pode falar de merenda escolar em Angola sem nomear o elefante na sala: o desvio de verbas. Historicamente, programas anteriores de alimentação escolar foram comprometidos por práticas de corrupção que vão desde o superfaturamento de alimentos, à criação de fornecedores fantasma, ao simples roubo de géneros já distribuídos. Como resultado, o impacto foi devastador, não apenas financeiramente, mas, sobretudo, na erosão da confiança pública na capacidade do Estado de gerir programas sociais com seriedade. De igual modo, as famílias dos musseques sabem disso. Os directores de escola sabem disso. E, infelizmente, na maioria dos casos, as autoridades que deveriam ter agido também souberam e ficaram em silêncio. Por essa razão, este silêncio tem um custo que se mede em pratos que nunca chegaram a ser servidos.

Ora, o Governo angolano tem em marcha, há já algum tempo, um novo programa de merenda escolar. Sem dúvida, a intenção é louvável. No entanto, a intenção, por si só, não alimenta ninguém. Logo, o que distinguirá este programa dos anteriores? Essa é a pergunta que a sociedade civil, bem como os pais têm o direito e o dever de fazer em voz alta.

Para tal, um programa eficaz de merenda escolar precisa de três pilares inegociáveis: transparência nos processos de aquisição e distribuição, supervisão independente com participação de comunidades locais e organizações da sociedade civil, e infraestrutura digna para que a refeição aconteça com um mínimo de condições. Comer numa carteira escolar, em cima de cadernos, num ambiente sem higiene adequada, não é uma solução, é uma improvisação com riscos sanitários reais. Nesse sentido, existem modelos internacionais que provam que a merenda escolar pode funcionar mesmo em países com recursos limitados e histórico de corrupção. Por exemplo, o Programa Nacional de Alimentação Escolar do Brasil (PNAE) é, globalmente, um dos casos mais estudados: baseia-se na compra directa a pequenos agricultores locais, na gestão descentralizada por municípios e num sistema rigoroso de auditoria pelo Tribunal de Contas e pelo controlo social das Associações de Pais. Assim sendo, Angola pode aprender com este modelo e adaptá-lo à sua realidade.

Concretamente, as medidas que deveriam ser incorporadas no programa angolano incluem: contratos de fornecimento públicos e acessíveis online; auditorias trimestrais com publicação obrigatória de resultados; envolvimento de associações de pais na recepção e verificação dos alimentos entregues; recurso a fornecedores locais e à produção agrícola das províncias, reduzindo custos e fortalecendo a economia local; e criação de um canal de denúncia anónima com protecção efectiva para denunciantes. Para além disso, há uma dimensão que raramente aparece nos debates sobre merenda escolar: as condições físicas em que a refeição acontece. A maioria das escolas públicas angolanas não tem refeitório. Algumas não têm sequer água potável acessível. Consequentemente, alimentar crianças nestas condições não é apenas logisticamente precário, é higienicamente irresponsável.

A título ilustrativo, uma reportagem televisiva recente, realizada na província da Huíla, evidencia bem esta realidade. Nessa ocasião, em várias escolas visitadas, as crianças comiam sentadas nas próprias carteiras, com os recipientes de comida pousados sobre os cadernos, enquanto a distribuição das refeições decorria de forma desordenada. Além disso, observavam-se filas desorganizadas, horários indefinidos e ausência de qualquer protocolo de higiene. Professores tentavam coordenar o processo, todavia, a ausência de espaço próprio e de regras claras tornava o momento caótico. Deste modo, aquilo que deveria ser uma pausa nutritiva e tranquila transformava-se num cenário de confusão e constrangimento para alunos e docentes.

Por conseguinte, a construção e equipamento de refeitórios escolares deve ser uma prioridade da política de investimento em infraestrutura educativa. Importa sublinhar que não precisam de ser luxuosos, basta que sejam limpos, funcionais e dignos. Com efeito, uma criança que come de forma digna interioriza, também, que o Estado a vê como cidadã, e não como um fardo.

Em última análise, a merenda escolar é um espelho das prioridades reais de um Estado. Ou seja, não aquelas que figuram nos discursos ou nos planos de desenvolvimento, mas aquelas que se reflectem nos orçamentos, nas decisões de execução e no rigor com que se persegue quem desvia recursos públicos destinados às crianças.

Angola tem capacidade financeira para garantir que nenhuma criança aprende de estômago vazio. Todavia, o que tem faltado, historicamente, é a vontade política de transformar essa capacidade em realidade e a coragem institucional de punir quem a sabota.

Concluindo, o novo programa é uma oportunidade. Mas as oportunidades, tal como os pratos, só têm valor quando chegam cheias e chegam mesmo.


segunda-feira, 20 de abril de 2026

A visita que o diamante não merece, mas os velhos precisam

Hoje, o Papa Leão XIV pisa a Lunda Sul. As câmeras estarão lá. O protocolo também. E algures, a dois quilómetros de qualquer palco oficial, um ancião dorme na rua porque a família o expulsou de casa. Foi acusado ser feiticeiro. 

Não é uma coincidência que isto aconteça numa das províncias mais ricas do país. É uma lógica.

A Lunda Sul é, no mapa da riqueza angolana, uma anomalia moral. O subsolo vale fortunas. As empresas extractivas operam. O diamante sai bruto da terra da Lunda Sul e regressa polido, mas nunca ao pulso de quem o desenterrou.

No entanto, o que o cidadão comum conhece é outra coisa: estradas que não chegam, hospitais que funcionam por improviso, escolas sem professores suficientes, e uma pobreza que parece resistente a toda a riqueza que passa por baixo dos pés.

É precisamente quando um território é espoliado assim, quando as novas gerações crescem sem futuro visível, que algo se parte no tecido social. A frustração precisa de um destino. E frequentemente, esse destino são os mais velhos.

Ora, seria cómodo reduzir as acusações de feitiçaria a superstição pura. Seria também desonesto.

Na verdade, por detrás de muitas acusações há disputa de herança. Há conflitos sobre terreno. Há famílias desestruturadas pela migração, pela miséria, pela ausência do Estado como árbitro. O ancião acusado raramente é apenas uma vítima de crença. É, muitas vezes, um obstáculo económico identificado com uma linguagem que a comunidade reconhece e que o Estado não pune.

O resultado é concreto e documentado: idosos expulsos de casa, humilhados publicamente, espancados. E alguns, simplesmente, assassinados.

Angola tem legislação. Angola tem polícia. Contudo, para o velho acusado de feitiçaria na Lunda Sul, essa Angola abstracta e letrada é um país que não existe.

A Igreja Católica tem, em Angola, na minha óptica, um peso moral que o Estado há muito perdeu. A sua palavra chega onde o decreto não entra. Nas comunidades rurais da Lunda Sul, um bispo, provavelmente, fala mais alto do que um governador.

Sendo assim, esta visita é uma oportunidade rara. O Papa podia fazer referência ao que está a acontecer. Podia dizer, sem eufemismo, que perseguir um idoso com acusação de feitiçaria é um crime. Podia dizer que abandonar um ancião é uma vergonha colectiva. Podia dizer que extrair diamantes de uma terra e deixar os seus filhos na miséria é uma forma de violência.

Podia. Mas a diplomacia papal tem os seus próprios interesses. E o governo angolano tem os seus próprios interlocutores junto do Vaticano. O silêncio, se vier, também será uma mensagem.

Existe uma medida simples de civilização: o modo como uma sociedade trata os seus velhos. Não os velhos do poder, porque esses têm escolta. Os velhos sem nome, sem influência, sem família disposta a protegê-los.

Por isso, Angola não precisa de uma visita fotogénica à Lunda Sul. Precisa de mais casas de acolhimento para idosos perseguidos. Precisa de um sistema judicial que processe os agressores. Precisa de um Estado que esteja presente antes de o problema chegar às câmeras de uma visita papal.

Afinal, o diamante que a Lunda Sul exporta passa por muitas mãos antes de chegar a uma jóia numa montra de Bruxelas ou de Lisboa. Nenhuma dessas mãos pertence ao velho que dorme na rua esta noite. Isso não é tradição. É abandono com nome diferente.


sábado, 18 de abril de 2026

Semáforos para o Papa, escuridão para o Povo

Luanda acendeu-se. De repente, as ruas têm luz. Os semáforos funcionam. As bermas foram varridas. O asfalto reapareceu onde havia buracos. A cidade parece, por alguns dias, aquilo que nunca conseguiu ser para os seus habitantes: uma cidade.

A razão é conhecida: o Papa Leão vem a Angola.

E com ele vêm as câmaras. Vem a imprensa internacional. Vem o olhar do mundo. E o governo, que durante anos achou que a escuridão, o lixo e os buracos eram toleráveis para os angolanos, descobriu subitamente que tem meios, que tem vontade, que tem a capacidade de governar.

A questão que se impõe não é de logística. É moral.

Quando as obras acontecem em vésperas de uma visita papal, o argumento da falta de recursos colapsa. Não é que o Estado não possa iluminar as ruas, é que nunca achou que iluminá-las para os angolanos valesse o esforço. A falta de luz não é pobreza: é escolha. A falta de semáforos não é atraso: é desprezo.

Os moradores de Luanda, e de muitas cidades de Angola, circulam em avenidas maioritariamente às escuras, desviam-se de buracos que engolem rodas, vivem em bairros que o Estado só conhece na época de eleições ou de visitas ilustres. Essa realidade não é acidental. É o resultado de um Estado que governa para a audiência errada.

Há um padrão nosso país: o Estado lembra-se de governar quando vêm estrangeiros ver. Uma cimeira da União Africana, uma visita de Estado, uma competição internacional.  E de repente, o país funciona. As instituições respondem. Os serviços aparecem. A cidade respira.

Depois a visita vai-se embora. E com ela vai a luz.

Este modelo tem nome: governança performativa. Governa-se para a câmara, não para o cidadão. O angolano não é o destinatário das políticas públicas, é o cenário. É o pano de fundo na fotografia que o governo quer tirar com o Papa.

A visita papal, que deveria ser apenas um momento de espiritualidade e encontro, tornou-se involuntariamente um espelho. Um espelho que mostra, com crueldade, a distância entre o que o Estado é capaz de fazer e o que decide fazer. Essa distância é a medida exacta do desprezo pelo angolano comum.

Não se governa uma nação para impressionar os estrangeiros. Governa-se para garantir que cada cidadão, independentemente do seu bairro, do seu estatuto, da sua visibilidade, da sua cor partidária, vive com dignidade. Ruas iluminadas, semáforos a funcionar, cidades limpas: não são cortesias para visitantes. São direitos. Foram sempre direitos.

Quando o Papa Leão partir, o governo voltará à sua indiferença habitual. As luzes podem apagar-se. Os buracos podem reabrir. A sujidade pode voltar. E os angolanos, que nunca foram a verdadeira audiência, continuarão a esperar.

Mas há algo que uma visita destas não consegue apagar: a consciência de que a normalidade é possível. De que a cidade pode funcionar. De que a escuridão não é destino, é negligência. E essa consciência, uma vez acesa, não se apaga facilmente.

 

Kady Mixinge

 

Abril, 2026


O tabuleiro que ensina a pensar

 

O xadrez tem o potencial de transformar a educação das crianças angolanas.

Imaginemos duas crianças sentadas frente a frente, um tabuleiro entre elas, silêncio à volta. Nenhum ecrã, nenhuma electricidade, nenhuma internet, apenas o peso de cada decisão, apenas a consequência de cada movimento, e a descoberta lenta de que pensar, pensar de verdade, é uma habilidade que se treina.

O xadrez existe há mais de mil e quinhentos anos. Atravessou civilizações, guerras, impérios e revoluções tecnológicas. E continua, hoje, a ser reconhecido por investigadores, pedagogos e psicólogos como uma das ferramentas mais completas para o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança.

Em Angola, onde o sistema educativo enfrenta desafios enormes, turmas sobrelotadas, falta de professores especializados, ausência de materiais, o xadrez representa uma oportunidade singular. É um instrumento de excelência ao alcance de qualquer escola, em qualquer província.

Sendo um jogo de múltiplas aprendizagens, engana-se quem vê no xadrez apenas um passatempo intelectual para adultos. De facto, a investigação científica acumulada nas últimas décadas é clara: a prática regular do xadrez desde cedo produz melhorias mensuráveis em áreas fundamentais do desenvolvimento infantil.

Não se trata de criar génios; trata-se, antes, de activar capacidades que já existem em cada criança e que o sistema de ensino convencional muitas vezes não consegue despertar. Entre essas capacidades, destacam-se as seguintes:

O raciocínio lógico: o xadrez obriga a criança a estabelecer relações de causa e efeito, a formular hipóteses e a testar consequências, exactamente o que a matemática e as ciências exigem.

A concentração: uma partida de xadrez não admite distracções. A criança aprende, assim, a focar a atenção por períodos prolongados, habilidade decisiva em qualquer contexto de aprendizagem.

A tomada de decisão: cada jogada é uma decisão sob pressão. O xadrez ensina, por isso, que as escolhas têm consequências e que a precipitação tem um custo. Uma lição que ultrapassa largamente o tabuleiro.

A resiliência emocional: perder é parte do jogo. Aprender a aceitar a derrota, analisar os erros e recomeçar sem desespero é, sem dúvida, uma das lições mais valiosas que o xadrez oferece às crianças.

O pensamento estratégico: planear com antecipação, prever os movimentos do adversário, adaptar à estratégia em tempo real. Qualidades que, em última análise, formam líderes e resolvedores de problemas.

O respeito e o fair play: o xadrez tem regras, tem ritual. Ensina a respeitar o adversário, a cumprir o acordo e a jogar com dignidade. São, afinal, valores que estruturam o carácter.

A par disso, um estudo de campo independente realizado no Bangladesh (Journal of Economic Psychology, 2019), com crianças do ensino primário em zonas rurais e de parcos recursos, confirmou resultados positivos num contexto socioeconómico semelhante ao de muitas regiões angolanas. Os benefícios não dependem da riqueza da família, nem da qualidade da escola. Dependem da prática e de quem decide torná-la possível.

A neurociência acrescenta, ainda, uma dimensão importante: o xadrez activa simultaneamente os dois hemisférios cerebrais. Enquanto o hemisfério esquerdo processa a lógica e os padrões, o hemisfério direito trabalha a criatividade e a intuição. Jogar xadrez é, literalmente, um exercício completo para o cérebro em desenvolvimento, com custos próximos de zero.

Neste sentido, uma criança que aprende xadrez não está apenas a aprender a mover peças. Está a aprender que o mundo tem lógica, que as decisões têm peso, e que a inteligência, a sua inteligência, é uma ferramenta que pode ser afiada.

Angola, importa sublinhar, não parte do zero. A Federação Angolana de Xadrez tem desenvolvido esforços para promover o jogo a nível nacional. Há escolas que já introduziram o xadrez nas suas actividades extracurriculares, e há jovens angolanos que têm representado o país em competições continentais, e não só, com distinção. O que falta não é capacidade. O que falta é sistematização e vontade política de transformar uma prática esporádica num programa nacional.

O modelo existe e está provado. A Arménia foi o primeiro país do mundo a tornar a xadrez disciplina obrigatória no ensino primário, em 2011 e pode, por isso, servir de referência. O objectivo é claro: desenvolver o pensamento analítico, a concentração e a capacidade de decisão desde cedo. A implementação, ademais, não exige infra-estruturas especiais, electricidade ou internet. Exige tabuleiros, vontade política e professores minimamente formados, e tudo isso está ao alcance de Angola.

A título de exemplo, um tabuleiro de xadrez artesanal pode ser fabricado com cartão e tampas de garrafa. Em escolas sem energia eléctrica, no interior de Malanje ou no Cuando, o jogo funciona na mesma. O xadrez é, talvez, o único instrumento pedagógico de alto impacto que não precisa de nada que Angola não tenha já.

Acresce que os efeitos do xadrez na criança não se confinam ao espaço escolar. Uma criança que joga xadrez regularmente desenvolve uma relação diferente com o erro: em vez de o temer, aprende a analisá-lo, em vez de desistir perante a dificuldade, procura a jogada seguinte. Esta disposição mental, a de quem sabe que cada posição difícil tem uma solução, ainda que por encontrar, é exactamente o perfil que Angola precisa de formar para os desafios do seu desenvolvimento.

O xadrez actua, outrossim, como igualador social. Numa mesa de jogo, o filho de um médico e o filho de um carpinteiro enfrentam-se com as mesmas peças, as mesmas regras e as mesmas possibilidades. O tabuleiro não sabe de onde vem cada um. Sabe apenas quem pensa melhor. Num país marcado por desigualdades profundas, este é um valor que não pode ser subestimado.

Não é necessário, portanto, esperar por uma reforma curricular profunda. Importa reconhecer, antes de mais, que em muitos municípios de Angola, tanto em Luanda como nalgumas províncias, existem já núcleos isolados de xadrez que, com poucos meios e sem grande visibilidade, têm sido agentes silenciosos da promoção do jogo junto das comunidades locais. Esse trabalho de base é um activo que não pode ser ignorado. Bastaria, por isso, que o Ministério da Educação de Angola, em parceria com a Federação Angolana de Xadrez, com esses núcleos municipais e com organizações da sociedade civil, lançasse um programa piloto em cem escolas primárias, distribuídas pelas diferentes províncias, com formação básica de professores e dotação de tabuleiros. Os resultados, avaliados ao fim de dois anos lectivos, falariam, muito provavelmente, por si.

O investimento seria mínimo. O retorno, em crianças que pensam melhor, que resistem mais, que decidem com mais cuidado, seria imenso. E Angola, que tanto precisa de construir as suas próximas gerações com ferramentas sólidas, encontraria num jogo de origem milenar um aliado improvável e extraordinariamente eficaz.

Em suma, o futuro do nosso país não se decide nos salões do poder. Decide-se nas salas de aula e nos tabuleiros onde as crianças aprendem, silenciosamente, que pensar é a coisa mais poderosa que um ser humano pode fazer.

Um tabuleiro. Trinta e duas peças. Sessenta e quatro casas. E a possibilidade, real e documentada, de transformar a forma como uma criança angolana enfrenta o mundo. Em Angola, temos visto investimentos mais caros que renderam e têm rendido muito menos.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Proliferação de Igrejas e o Subdesenvolvimento em Angola

 

Quando a fé se torna indústria e a esperança substitui a exigência, o povo paga a conta duas vezes — na carteira e no futuro.

Angola tem igrejas a mais e escolas a menos. Em vários municípios de Luanda, o número de templos supera o de estabelecimentos de ensino público com condições mínimas de funcionamento. Este facto, por si só, não seria preocupante se as igrejas cumprissem apenas a sua função espiritual. O problema começa quando deixam de ser casas de culto para se tornarem negócios de esperança e agrava-se quando esse negócio prospera precisamente à custa da ignorância, da vulnerabilidade e da pobreza que afirma combater.

A correlação entre a proliferação religiosa e o subdesenvolvimento em Angola não é acidental. É estrutural. E percebê-la exige honestidade intelectual que poucos se permitem, por medo de soar impopular numa sociedade onde a fé é simultaneamente consolo e identidade.

O modelo dominante das igrejas que proliferam em Angola, maioritariamente de matriz neopentecostal, muitas delas de origem brasileira, nigeriana ou congolesa, não é o do serviço espiritual gratuito. É o de uma indústria sofisticada de extracção económica. O dízimo obrigatório de dez por cento do rendimento, as ofertas de "semente" prometendo retorno multiplicado, os pagamentos por sessões de "libertação", por "unções especiais" ou pelo simples acesso ao pastor, tudo isto constitui um fluxo contínuo de transferência de riqueza das famílias mais pobres para os líderes religiosos, tornando-os mais ricos.

 É uma redistribuição ao contrário. Enquanto os Estados modernos tributam os mais ricos para proteger os mais frágeis, este modelo tributa os mais frágeis para enriquecer os que já têm poder. O resultado visível são pastores que conduzem viaturas de luxo em bairros onde os seus fiéis não têm acesso à água canalizada.

A explicação sobrenatural do sofrimento é a mais eficaz das ferramentas de dominação. Quando a pobreza é um "ataque espiritual", o Estado não tem culpa e o povo não tem razão para exigir.

O segundo mecanismo, mais subtil e talvez mais pernicioso, é ideológico. Quando o desemprego, a doença, a miséria e o fracasso pessoal são sistematicamente explicados como resultado de "ataques espirituais", de "falta de fé" ou de "maldições geracionais", remove-se a análise das causas estruturais. O crente que atribui a sua pobreza a um demónio familiar não questiona o Estado que lhe nega emprego, educação ou saúde. Não exige políticas públicas fiáveis e consistentes. Não organiza resistência colectiva. O que faz? Volta para casa, jejua três dias, e paga mais uma oferta para "quebrar o feitiço".

É evidente que esta despolitização do sofrimento é extremamente conveniente para os governos que falham as suas populações. Não é coincidência que regimes autoritários em África cultivem relações próximas com os líderes religiosos mais influentes. A lógica é simples: uma população que explica os seus problemas em termos espirituais é uma população que não responsabiliza o poder político pelos seus problemas materiais. A Igreja legitima o poder e o poder protege a Igreja. O povo paga as contas de ambos.

Há um custo menos visível, mas igualmente real: o tempo. Em muitas comunidades urbanas angolanas, os crentes passam entre quinze a vinte horas semanais em actividades religiosas. Torram muito tempo em cultos de semana, vigílias nocturnas, estudos bíblicos, reuniões de célula, cultos de domingo. Este tempo aplicado à formação profissional, ao desenvolvimento de um negócio, ao estudo dos filhos, à participação cívica ou simplesmente ao descanso recuperador, teria um valor económico e social imenso. Não se trata de negar o direito à espiritualidade. Trata-se de reconhecer que o modelo de consumo religioso imposto por estas igrejas, que beneficiam directamente de uma filiação intensa e permanente, compete directamente com o desenvolvimento humano dos seus membros.

Como nota de equidade, sublinhar que seria desonesto ignorar o outro lado. Em muitas comunidades angolanas, as igrejas são a única rede de segurança social real. Alimentam crianças, acolhem doentes, mediam conflitos familiares e étnicos, fornecem redes de solidariedade. Onde o Estado angolano falha completamente, a igreja preenche o vazio. Portanto, o problema não está na função social que cumprem. O problema está no modelo de negócio que a envolve e na ideologia que impede os cidadãos de exigir que o Estado cumpra as suas obrigações. Logo, devemos perguntar: a proliferação de igrejas é causa do subdesenvolvimento angolano, ou é sintoma do mesmo? A resposta honesta seria: as duas coisas, simultaneamente. Sociedades com instituições estatais frágeis, sem horizontes económicos e com alta ansiedade existencial é terreno fértil para o negócio religioso. A incerteza cria procura de certezas sobrenaturais. A pobreza cria procura de milagres. A ausência de justiça cria procura de julgamento divino.

Mas o negócio, uma vez instalado, tem interesse em perpetuar as condições que o geraram. Uma população educada, crítica e com mobilidade económica ascendente é uma população menos susceptível à teologia da prosperidade, menos dependente de pastores como intermediários do divino, e menos disposta a entregar dez por cento do seu rendimento em troca de promessas não verificáveis. Por isso, consciente ou inconscientemente, este modelo eclesial tem interesse estrutural na manutenção da ignorância e da vulnerabilidade. É um ciclo que se auto-alimenta. A pobreza gera a dependência religiosa, a dependência religiosa aprofunda a pobreza. A pobreza aprofundada gera mais dependência religiosa. Quebrar este ciclo exige três coisas que o modelo actual tem interesse em suprimir. Uma educação pública de qualidade, um Estado social funcional e pensamento crítico generalizado.

O meu argumento não é contra a fé. A fé, na sua expressão genuína, é uma dimensão irredutível da experiência humana. O que está em causa é a instrumentalização da fé como mecanismo de extracção económica e de controlo social. Está em causa a diferença entre uma instituição que serve a sua comunidade e uma indústria que explora a vulnerabilidade da mesma.

Para concluir, afirmo com veemência que Angola merece igrejas que construam escolas em vez de condomínios privados para os seus pastores. Merece líderes religiosos que defendam os seus fiéis perante o Estado em vez de legitimarem os que os oprimem. Merece uma sociedade onde a esperança não seja um produto à venda e onde o futuro seja construído com trabalho, conhecimento e exigência cívica, e não aguardado de joelhos.

Enquanto Angola continuar a ter mais templos do que bibliotecas, mais vigílias do que oportunidades de formação, e mais pastores milionários do que engenheiros bem pagos, a equação do subdesenvolvimento permanecerá inalterada. Os demónios que nos afligem têm nomes concretos: má governação, petróleo amaldiçoado, educação desamparada, pensamento crítico anulado. E estes, não se exorcizam com ofertas. Exorcizam-se com cidadania.


terça-feira, 10 de maio de 2011

O Angolano e o Thomas Paine


-….
- Visão quê?
- Visão democrática.
- De quem?
- Thomas Paine.
- Thomas quê?
- Thomas Paine.
- É angolano?

- Não, não é. Com este nome seria muito difícil, mas bem poderia sê-lo. Seria da nova geração. Da nova geração de angolanos que nascem em Londres ou Nova Iorque cujos pais optam por um nome de lá para “internacionalizar e globalizar” os seus filhos, da geração que quer um país organizado, um país no qual as pessoas são valorizadas e julgadas pelo seu carácter, independentemente da origem, raça, credo religioso, filiação partidária. Da geração sabe que a melhor riqueza do seu país é a pessoa humana, que os verdadeiros jazigos de diamantes e minas de ouro e prata são as pessoas, que tudo o resto é complementar. Da geração que vai às manifestações de livre e espontânea vontade, e não vai por pressão de quem quer que seja. Da geração que viveu e continua a viver de certa forma a ditadura, e acredita que ela não é a nossa sina. Da geração que se orgulha da dedicação e esforço dos KOTAS na luta pela libertação de Angola, mas que também não aceita nem admite que alguns KOTAS brinquem com a sua inteligência. Da geração que está para o que der e vier, e sabe lá no fundo que, somos mais ricos na diversidade, somos mais completos na unidade. Quem foi Thomas Paine? Thomas Paine foi um dos pais fundadores dos Estados Unidos da América. Britânico de origem, Paine emigrou para as colónias britânicas na América do Norte aos 37 anos de idade, participando activamente na revolução americana, contribuiu de forma incansável no processo que culminou com a independência dos Estados Unidos da América do Reino da Grã-Bretanha em 1776. Tanto mais que quando se fala da Revolução Americana, um dos primeiros nomes que aparece, é Thomas Paine. Ele também marcou presença na Revolução Francesa. Que relação entre Thomas Paine e os Angolanos? Porque trago Thomas Paine à baila? Simplesmente, pelo facto de ele ter escrito um livro que eu considero muito interessante. O livro chama-se “Common Sense” que em português significa “Senso Comum”. “Senso Comum” é um hino à liberdade, à democracia e à justiça social, bastante criticada no seu tempo, é uma obra que ficou na história mais pelo seu lado positivo do que o negativo.

- Eu sou mwangolé. O que é que tenho a ver com isso?

- Pois, aí é que está, “Senso Comum” é uma obra que bem poderia ter sido escrita em pleno século XXI por um angolano que sentisse que a democracia em Angola é uma fachada; por um angolano que sentisse que existe abuso de poder em Angola; por um angolano cansado de ter medo de perder os seus direitos e liberdades por expressar as suas opiniões. Um angolano esclarecido e comprometido com valores universais, certamente, escreveria “Senso Comum” baseado, como é lógico, na nossa realidade. “Senso Comum” escrito há mais de um século atrás, parece tão actual e ajusta-se, com a justa distância, tão bem a nossa realidade que, eu cheguei a desejar que Thomas Paine tivesse nascido em Angola. Há Thomas Paines em Angola? Com mesma visão e não só? Acredito que sim. Precisamos deles.

- Ok, já percebi. Tu queres que o Thomas Paine seja o Presidente de Angola.

- Não percebeste nada. Estou a falar da visão democrática…epá, estou cansado, amanhã, explico-te melhor. Um abraço.

- Humm…