O Chefe de
Estado, João Manuel Gonçalves Lourenço, inaugurou hoje, em Luanda, o Parque de Ciência e Tecnologia. Um
investimento de 100 milhões de dólares financiado em 90% pelo Banco Africano de
Desenvolvimento. Trata-se de uma conquista real.
Depois de
anos de obras, o país passa a ter, finalmente, um espaço pensado para acolher
investigação científica, incubação de empresas e formação técnica de alto
nível. É justo reconhecer o que isto representa. O caminho para o
desenvolvimento faz-se caminhando, e este é, sem dúvida, um passo dado.
Um parque de
ciência e tecnologia não é, nem deve ser, apenas um conjunto de edifícios
modernos com boa arquitectura. É, ou deveria ser, o ponto de encontro entre
quem investiga, quem ensina, quem aprende e quem cria riqueza a partir do
conhecimento. É aqui que um país como Angola, ainda excessivamente dependente
do petróleo, pode começar a construir alternativas reais: start-ups
tecnológicas, soluções agrícolas adaptadas ao nosso clima, respostas de saúde
pública pensadas a partir da nossa realidade, e não importadas de contextos que
pouco se parecem com o nosso.
A
importância deste projecto mede-se, por isso, em várias dimensões. Primeiro, a
dimensão económica: um espaço de incubação de empresas é uma fábrica de emprego
qualificado, numa altura em que milhares de jovens angolanos terminam o ensino
superior sem perspectiva clara de absorção no mercado de trabalho. Segundo, a
dimensão científica: laboratórios e centros de investigação a funcionar a sério
podem travar a fuga de quadros que, durante anos, viram no estrangeiro a única
forma de continuar a investigar com condições. Terceiro, a dimensão simbólica:
mostra-se ao país, e sobretudo aos mais jovens, que ciência e tecnologia não
são um luxo de outros povos, mas um caminho possível também para um angolano
nascido em Cabinda, no Kwanza-Sul ou no Cunene.
Para que
este parque cumpra a sua função, a ligação com as universidades angolanas, a
Agostinho Neto à cabeça, dada a proximidade física do projecto, mas não só, não
pode ser um detalhe protocolar mencionado no discurso de inauguração e
esquecido depois. Tem de ser estrutural. Isto significa bolsas de investigação
geridas com critério e transparência, professores universitários com tempo e
incentivo para investigar dentro do parque, e estudantes finalistas com acesso
real aos laboratórios e não apenas a visitas guiadas de meia hora.
Significa
também abrir as portas a quem já produz conhecimento fora dos circuitos
oficiais, por exemplo, os jovens que programam por conta própria, os inventores
informais, os engenheiros que resolvem problemas todos os dias com os recursos
limitados que têm. Um parque de ciência que dialogue apenas com a academia
institucional, e ignore o talento disperso pelo país, estará a desperdiçar
metade do seu potencial.
Dito isto, e
precisamente porque o projecto merece ser levado a sério, é preciso fazer um
aviso que a experiência recente do país torna incontornável: Angola tem um
historial preocupante de infra-estruturas inauguradas com pompa e, poucos anos
depois, devolvidas ao abandono por falta de manutenção. Vimo-lo em hospitais,
em centros culturais, em equipamentos desportivos e em sistemas informáticos
comprados a peso de ouro e nunca actualizados. A inauguração de hoje não pode
juntar-se a essa lista.
A manutenção
de um parque tecnológico não é um custo residual a cortar no primeiro aperto
orçamental. É a condição da sua própria existência. Equipamento de laboratório
descalibrado, servidores sem actualização de segurança, redes de internet
instáveis ou edifícios climatizados que deixam de o ser tornam qualquer parque
de ciência, por mais moderno que tenha sido no dia da inauguração, num espaço
inútil ao fim de poucos anos. E o custo de recuperar um equipamento abandonado
é, quase sempre, superior ao custo de o manter em funcionamento contínuo.
Por isso,
este artigo defende três compromissos concretos que deveriam acompanhar, desde
já, esta inauguração. Primeiro, um orçamento de manutenção plurianual, público
e fiscalizável, que não dependa da boa vontade do orçamento geral do Estado de
cada ano. Segundo, uma gestão técnica do parque com autonomia suficiente para
tomar decisões rápidas sobre equipamento e pessoal, livre da burocracia que
asfixia tantas outras instituições públicas angolanas. Terceiro, indicadores de
desempenho públicos e revistos anualmente, tais como, quantas patentes, quantas
start-ups, quantos empregos, quantos artigos científicos. Tudo isto, para que o
parque preste contas à sociedade que o financiou, através de um empréstimo que
terá de ser pago.
Se estas
condições forem cumpridas, os frutos podem mesmo chegar à sociedade, e não
ficar presos num relatório institucional arquivado. Falamos de soluções
tecnológicas pensadas para problemas genuinamente angolanos: desde a gestão da
água em zonas rurais até sistemas de saúde digital adaptados às nossas
infra-estruturas, de empregos qualificados que retêm em Angola talento que hoje
emigra, e de uma cultura científica que comece, finalmente, a instalar-se fora
dos discursos oficiais e dentro da vida quotidiana das pessoas.
O caminho
para o desenvolvimento faz-se caminhando, sim. Mas também se faz cuidando do
caminho que já foi aberto. A inauguração de hoje é motivo de satisfação
genuína. A vigilância sobre o que acontece a este parque nos próximos dez anos
é que vai determinar se foi, de facto, um marco ou apenas mais uma fotografia
bonita na história recente do país.