sexta-feira, 19 de junho de 2026

O Parque de Ciência e Tecnologia - Um marco que só vale se for cuidado

 

O Chefe de Estado, João Manuel Gonçalves Lourenço, inaugurou hoje, em Luanda, o Parque de Ciência e Tecnologia. Um investimento de 100 milhões de dólares financiado em 90% pelo Banco Africano de Desenvolvimento. Trata-se de uma conquista real.

Depois de anos de obras, o país passa a ter, finalmente, um espaço pensado para acolher investigação científica, incubação de empresas e formação técnica de alto nível. É justo reconhecer o que isto representa. O caminho para o desenvolvimento faz-se caminhando, e este é, sem dúvida, um passo dado.

Um parque de ciência e tecnologia não é, nem deve ser, apenas um conjunto de edifícios modernos com boa arquitectura. É, ou deveria ser, o ponto de encontro entre quem investiga, quem ensina, quem aprende e quem cria riqueza a partir do conhecimento. É aqui que um país como Angola, ainda excessivamente dependente do petróleo, pode começar a construir alternativas reais: start-ups tecnológicas, soluções agrícolas adaptadas ao nosso clima, respostas de saúde pública pensadas a partir da nossa realidade, e não importadas de contextos que pouco se parecem com o nosso.

A importância deste projecto mede-se, por isso, em várias dimensões. Primeiro, a dimensão económica: um espaço de incubação de empresas é uma fábrica de emprego qualificado, numa altura em que milhares de jovens angolanos terminam o ensino superior sem perspectiva clara de absorção no mercado de trabalho. Segundo, a dimensão científica: laboratórios e centros de investigação a funcionar a sério podem travar a fuga de quadros que, durante anos, viram no estrangeiro a única forma de continuar a investigar com condições. Terceiro, a dimensão simbólica: mostra-se ao país, e sobretudo aos mais jovens, que ciência e tecnologia não são um luxo de outros povos, mas um caminho possível também para um angolano nascido em Cabinda, no Kwanza-Sul ou no Cunene.

Para que este parque cumpra a sua função, a ligação com as universidades angolanas, a Agostinho Neto à cabeça, dada a proximidade física do projecto, mas não só, não pode ser um detalhe protocolar mencionado no discurso de inauguração e esquecido depois. Tem de ser estrutural. Isto significa bolsas de investigação geridas com critério e transparência, professores universitários com tempo e incentivo para investigar dentro do parque, e estudantes finalistas com acesso real aos laboratórios e não apenas a visitas guiadas de meia hora.

Significa também abrir as portas a quem já produz conhecimento fora dos circuitos oficiais, por exemplo, os jovens que programam por conta própria, os inventores informais, os engenheiros que resolvem problemas todos os dias com os recursos limitados que têm. Um parque de ciência que dialogue apenas com a academia institucional, e ignore o talento disperso pelo país, estará a desperdiçar metade do seu potencial.

Dito isto, e precisamente porque o projecto merece ser levado a sério, é preciso fazer um aviso que a experiência recente do país torna incontornável: Angola tem um historial preocupante de infra-estruturas inauguradas com pompa e, poucos anos depois, devolvidas ao abandono por falta de manutenção. Vimo-lo em hospitais, em centros culturais, em equipamentos desportivos e em sistemas informáticos comprados a peso de ouro e nunca actualizados. A inauguração de hoje não pode juntar-se a essa lista.

A manutenção de um parque tecnológico não é um custo residual a cortar no primeiro aperto orçamental. É a condição da sua própria existência. Equipamento de laboratório descalibrado, servidores sem actualização de segurança, redes de internet instáveis ou edifícios climatizados que deixam de o ser tornam qualquer parque de ciência, por mais moderno que tenha sido no dia da inauguração, num espaço inútil ao fim de poucos anos. E o custo de recuperar um equipamento abandonado é, quase sempre, superior ao custo de o manter em funcionamento contínuo.

Por isso, este artigo defende três compromissos concretos que deveriam acompanhar, desde já, esta inauguração. Primeiro, um orçamento de manutenção plurianual, público e fiscalizável, que não dependa da boa vontade do orçamento geral do Estado de cada ano. Segundo, uma gestão técnica do parque com autonomia suficiente para tomar decisões rápidas sobre equipamento e pessoal, livre da burocracia que asfixia tantas outras instituições públicas angolanas. Terceiro, indicadores de desempenho públicos e revistos anualmente, tais como, quantas patentes, quantas start-ups, quantos empregos, quantos artigos científicos. Tudo isto, para que o parque preste contas à sociedade que o financiou, através de um empréstimo que terá de ser pago.

Se estas condições forem cumpridas, os frutos podem mesmo chegar à sociedade, e não ficar presos num relatório institucional arquivado. Falamos de soluções tecnológicas pensadas para problemas genuinamente angolanos: desde a gestão da água em zonas rurais até sistemas de saúde digital adaptados às nossas infra-estruturas, de empregos qualificados que retêm em Angola talento que hoje emigra, e de uma cultura científica que comece, finalmente, a instalar-se fora dos discursos oficiais e dentro da vida quotidiana das pessoas.

O caminho para o desenvolvimento faz-se caminhando, sim. Mas também se faz cuidando do caminho que já foi aberto. A inauguração de hoje é motivo de satisfação genuína. A vigilância sobre o que acontece a este parque nos próximos dez anos é que vai determinar se foi, de facto, um marco ou apenas mais uma fotografia bonita na história recente do país.


terça-feira, 16 de junho de 2026

Angola, o que fizeste às tuas crianças?

Em 16 de Junho de 1976, estudantes de Soweto marcharam contra a imposição do afrikaans como língua de ensino. A polícia do apartheid respondeu com balas. Hector Pieterson tinha treze anos quando caiu. A sua morte, fotografada por Sam Nzima, transformou-se num dos gritos mais audíveis do século XX. Cinquenta anos depois, o continente africano instituiu esse dia como festa. Angola celebra-o. Haverá discursos. Haverá crianças com balões coloridos em frente a câmaras de televisão. E no dia seguinte, tudo ficará exactamente como estava.

Mas este artigo não é uma festa. É uma interpelação.

Angola tem, oficialmente, uma taxa de escolarização primária superior a 80%. O número impressiona quem não visita as escolas. Quem as visita encontra turmas de oitenta alunos partilhando dez manuais, professores a leccionarem dois turnos por falta de pessoal, e crianças sentadas em chão de terra porque os bancos nunca chegaram. A escolarização registada não é sinónimo de aprendizagem realizada.

O Governo angolano gasta em educação uma fracção residual do orçamento do Estado comparada com o que gasta em segurança, em protocolo presidencial e em serviço da dívida externa. Uma criança nascida hoje em Luanda tem menos probabilidade de completar o ensino secundário com competências de leitura e matemática funcionais do que uma criança nascida em Ruanda, no Quénia ou em Cabo Verde, países com PIB per capita inferior ao angolano. A riqueza existe. A vontade política, essa, não tem data de chegada.

Perguntem a qualquer criança do Sambizanga, do Cazenga ou do Lubango o que sonha ser. Médica. Engenheiro. Professora. Advogado. Agora perguntem ao Estado se está disposto a investir nesse sonho com a mesma energia com que inaugura estádios e pavilhões que nenhuma dessas crianças algum dia utilizará. A resposta encontra-se nos relatórios do UNICEF, do Banco Mundial e no próprio Instituto Nacional de Estatísticas, desde que se tenha coragem de os ler sem os arquivar.

Angola regista uma das taxas de mortalidade infantil mais elevadas do mundo. Crianças morrem de malária, de diarreia, de desnutrição, de doenças que o século XXI já sabe curar. Morrem não por falta de solução técnica, mas por falta de vontade de chegar a quem precisa.

Os hospitais existem. Alguns são novos, recentes, inaugurados com pompa ministerial e fotografias de capa. Mas os medicamentos faltam. As ambulâncias estão imobilizadas. O enfermeiro está sozinho numa maternidade que deveria ter oito. A mãe que chegou de madrugada, a pé, vinte quilómetros, com uma criança com febre a quarenta graus, é recebida com uma lista de material que tem de trazer ela própria: luvas, algodão, soro. O Estado inaugurou o edifício. O Estado não inaugurou o cuidado.

Cada criança que morre de cólera é uma acusação directa à decisão de não construir saneamento básico. Cada criança desnutrida no sul do país é uma acusação directa à decisão de não diversificar a economia nem apoiar a agricultura familiar. Não são tragédias. São escolhas orçamentais com rostos pequenos.

Em Angola, a criança que não está numa sala de aula deteriorada está, muitas vezes, a trabalhar. Vende água nos cruzamentos de Luanda. Carrega sacos no mercado do Catinton. Cuida dos irmãos mais novos enquanto os pais procuram sobrevivência. Nas zonas rurais, trabalha a terra. Nas minas ilegais do Leste e do Centro-Sul, arrisca a vida por uma pedra que valerá, para outros, o que ela jamais verá.

O trabalho infantil em Angola não é residual. É estrutural. É a resposta de famílias sem rede de protecção social a uma economia que as excluiu. O Governo criminaliza os sintomas (o garimpeiro jovem, o vendedor miúdo) sem jamais processar a causa: a ausência de políticas que tornem possível a uma família sobreviver sem mobilizar os seus filhos como força de trabalho.

Uma criança que trabalha não está a escolher. Está a ser escolhida pela pobreza que o Estado não quis combater com a mesma determinação com que combate a dissidência.

Hoje, representantes do Estado pronunciarão palavras bonitas. Citarão a Convenção sobre os Direitos da Criança, que Angola ratificou. Exibirão números de matrículas. Anunciarão programas com nomes novos e verbas indefinidas. Falarão do novo programa da merenda escola, e quando a sessão terminar, os problemas que matam, que embrutecem e que roubam o futuro das crianças angolanas continuarão exactamente onde estavam.

O que se exige não é retórica. É responsabilidade. É que o orçamento do Estado reflicta a prioridade que se proclama nos discursos. É que cada hospital tenha medicamentos antes de ter placa comemorativa. É que cada escola tenha professores pagos a tempo, livros suficientes e instalações sanitárias básicas. É que os sistemas de protecção social cheguem às famílias vulneráveis antes que as crianças dessas famílias sejam forçadas a abandonar a sala de aula para alimentar os irmãos.

Angola não é um país pobre. Angola é um país com petróleo, com diamantes, com terras raras, com terra fértil, com uma abundante costa marítima, com recursos que nações sem nada disto invejam. A pobreza das crianças angolanas não é um destino geográfico. É uma consequência política. É o resultado de décadas de governação que privilegiou a acumulação de uma elite sobre o investimento no capital humano da nação.

Hector Pieterson morreu porque um regime decidiu que certas crianças não mereciam educação na sua própria língua. As crianças angolanas de hoje não são mortas por balas de polícia. São mortas por orçamentos que as ignoram, por sistemas que as excluem, por uma governação que as menciona em discursos e as esquece em decretos.

A diferença entre Soweto 1976 e Angola 2026 é que a arma mudou de forma. A violência tornou-se administrativa.

Nenhum país se constrói ignorando metade da sua população. E a infância não é uma fase de espera, é a fundação de tudo o que um país pode vir a ser. Angola escolhe todos os dias o que faz com essa fundação. Enquanto a escolha for a indiferença disfarçada de celebração, o Dia da Criança Africana será, em Angola, apenas mais uma efeméride.

Portanto, parem de falar das crianças nos discursos e comecem a governar para elas.