quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Lealdade antes do saber

Há um sintoma que revela a saúde de um governo ou regime: a forma como escolhe quem dirige. Quando a direcção de uma escola exige mais um cartão de militante do que uma formação pedagógica ou quando a gestão do arquivo histórico de um país é entregue a um aliado político em vez de um técnico formado na área, a conclusão é inevitável. O mérito foi substituído pela obediência.

Isto não é um pormenor administrativo. A escola é o lugar onde se aprende a duvidar, a perguntar e a argumentar. Se quem a dirige deve o lugar à fidelidade partidária, o que se ensina, mesmo sem palavras, é que progredir exige calar. O director que sabe que o cargo depende do partido não protegerá o professor que pensa de forma independente. Protegerá o seu lugar. Assim se forma uma geração que aprende cedo que pensar tem custos e que pertencer compensa.

O arquivo histórico é ainda mais grave. Um arquivo é a memória organizada de uma nação, e a memória é matéria de poder. Quem a controla decide o que se preserva, o que se cataloga e o que se deixa apodrecer numa prateleira. Um técnico de formação responde a normas profissionais que valem independentemente de quem governa. Um aliado político responde a quem o nomeou. Num caso, a história é um património de todos. No outro, torna-se um instrumento de legitimação.

O custo é também económico e social. Um país que desperdiça os seus quadros mais competentes por não terem a cor certa empobrece-se. O engenheiro, a historiadora e o professor preparados e sem filiação são empurrados para a margem, para o silêncio ou para a emigração. Fica um Estado ocupado por quem sabe agradar e não por quem sabe fazer.

Há ainda uma perda mais discreta e talvez mais dolorosa: a dos que estudaram e, chegados ao poder ou perto dele, esquecem o que aprenderam. Passaram anos a ler, a analisar e a exigir rigor, e acabam a bajular quem decide, a aplaudir o que sabem estar errado e a justificar o injustificável. Nem sempre é cinismo puro. É, muitas vezes, cálculo de sobrevivência num sistema onde a proximidade ao poder garante o emprego, o contrato ou a promoção. Mas o resultado é devastador, porque o diploma deixa de servir o país e passa a servir de verniz à obediência. Quando quem tem formação para criticar escolhe calar ou aplaudir, o poder fica sem quem lhe diga a verdade e os erros multiplicam-se sem contraditório. Um regime que premeia a lealdade acaba por fabricar bajuladores, e um país com muitos diplomados e pouco pensamento livre desperdiça aquilo que investiu a formá-los.

Há quem, perante tudo isto, compare Angola com os países do hemisfério norte, e a comparação, reconheça-se, nem sempre é justa. Esses países tiveram séculos para construir instituições, atravessaram as suas próprias convulsões e continuam longe da perfeição. Mas seria um erro descartar o gesto como simples deslumbramento. Quem olha para lá da fronteira e diz que lá isto não aconteceria não está a desprezar o seu país. Está, muitas vezes, a medir a distância entre o que Angola é e o que poderia ser. A comparação é imperfeita, mas a inquietação que a move é legítima: é a de quem não aceita que o anormal passe por normal. Um país que se habitua às suas anormalidades deixa de as ver, e o que não se vê não se corrige.

Libertar Angola desta lógica não exige ódio a ninguém. Exige princípios simples: concursos públicos transparentes, critérios técnicos publicados, protecção de quem discorda e a separação clara entre Estado e partido. Uma instituição pública pertence ao povo e não ao partido que a gere em cada momento. Angola tem gente talentosa de sobra. Falta-lhe o direito de a usar sem pedir licença a ninguém.

O pensamento crítico não é uma ameaça à nação. É o seu seguro de vida. Os países que prosperam são os que toleram quem os contraria, porque é aí que se corrigem os erros antes de se tornarem tragédias. Enquanto a lealdade valer mais do que o saber, estaremos a adiar o futuro.

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