Luanda acendeu-se. De repente, as ruas têm luz. Os semáforos funcionam. As bermas foram varridas. O asfalto reapareceu onde havia buracos. A cidade parece, por alguns dias, aquilo que nunca conseguiu ser para os seus habitantes: uma cidade.
A razão é conhecida: o Papa Leão
vem a Angola.
E com ele vêm as câmaras. Vem a
imprensa internacional. Vem o olhar do mundo. E o governo, que durante anos
achou que a escuridão, o lixo e os buracos eram toleráveis para os angolanos,
descobriu subitamente que tem meios, que tem vontade, que tem a capacidade de
governar.
A questão que se impõe não é de
logística. É moral.
Quando as obras acontecem em
vésperas de uma visita papal, o argumento da falta de recursos colapsa. Não é
que o Estado não possa iluminar as ruas, é que nunca achou que iluminá-las para
os angolanos valesse o esforço. A falta de luz não é pobreza: é escolha. A
falta de semáforos não é atraso: é desprezo.
Os moradores de Luanda, e de
muitas cidades de Angola, circulam em avenidas maioritariamente às escuras,
desviam-se de buracos que engolem rodas, vivem em bairros que o Estado só
conhece na época de eleições ou de visitas ilustres. Essa realidade não é
acidental. É o resultado de um Estado que governa para a audiência errada.
Há um padrão nosso país: o Estado
lembra-se de governar quando vêm estrangeiros ver. Uma cimeira da União
Africana, uma visita de Estado, uma competição internacional. E de repente, o país funciona. As
instituições respondem. Os serviços aparecem. A cidade respira.
Depois a visita vai-se embora. E
com ela vai a luz.
Este modelo tem nome: governança
performativa. Governa-se para a câmara, não para o cidadão. O angolano não é o
destinatário das políticas públicas, é o cenário. É o pano de fundo na
fotografia que o governo quer tirar com o Papa.
A visita papal, que deveria ser
apenas um momento de espiritualidade e encontro, tornou-se involuntariamente um
espelho. Um espelho que mostra, com crueldade, a distância entre o que o Estado
é capaz de fazer e o que decide fazer. Essa distância é a medida exacta do
desprezo pelo angolano comum.
Não se governa uma nação para
impressionar os estrangeiros. Governa-se para garantir que cada cidadão, independentemente
do seu bairro, do seu estatuto, da sua visibilidade, da sua cor partidária, vive
com dignidade. Ruas iluminadas, semáforos a funcionar, cidades limpas: não são
cortesias para visitantes. São direitos. Foram sempre direitos.
Quando o Papa Leão partir, o
governo voltará à sua indiferença habitual. As luzes podem apagar-se. Os
buracos podem reabrir. A sujidade pode voltar. E os angolanos, que nunca foram
a verdadeira audiência, continuarão a esperar.
Mas há algo que uma visita destas
não consegue apagar: a consciência de que a normalidade é possível. De que a
cidade pode funcionar. De que a escuridão não é destino, é negligência. E essa
consciência, uma vez acesa, não se apaga facilmente.
Kady Mixinge
Abril, 2026
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