Hoje, o Papa Leão XIV pisa a Lunda Sul. As câmeras estarão lá. O protocolo também. E algures, a dois quilómetros de qualquer palco oficial, um ancião dorme na rua porque a família o expulsou de casa. Foi acusado ser feiticeiro.
Não é uma coincidência que isto aconteça numa das províncias mais ricas do país. É uma lógica.
A Lunda Sul é, no mapa da riqueza angolana, uma anomalia moral. O subsolo vale fortunas. As empresas extractivas operam. O diamante sai bruto da terra da Lunda Sul e regressa polido, mas nunca ao pulso de quem o desenterrou.
No
entanto, o que o cidadão comum conhece é outra coisa: estradas que não chegam,
hospitais que funcionam por improviso, escolas sem professores suficientes, e
uma pobreza que parece resistente a toda a riqueza que passa por baixo dos pés.
É
precisamente quando um território é espoliado assim, quando as novas gerações
crescem sem futuro visível, que algo se parte no tecido social. A frustração
precisa de um destino. E frequentemente, esse destino são os mais velhos.
Ora, seria cómodo reduzir as acusações de feitiçaria a superstição pura. Seria também desonesto.
Na
verdade, por detrás de muitas acusações há disputa de herança. Há conflitos
sobre terreno. Há famílias desestruturadas pela migração, pela miséria, pela
ausência do Estado como árbitro. O ancião acusado raramente é apenas uma vítima
de crença. É, muitas vezes, um obstáculo económico identificado com uma
linguagem que a comunidade reconhece e que o Estado não pune.
O
resultado é concreto e documentado: idosos expulsos de casa, humilhados
publicamente, espancados. E alguns, simplesmente, assassinados.
Angola
tem legislação. Angola tem polícia. Contudo, para o velho acusado de feitiçaria
na Lunda Sul, essa Angola abstracta e letrada é um país que não existe.
A Igreja Católica tem, em Angola, na minha óptica, um peso moral que o Estado há muito perdeu. A sua palavra chega onde o decreto não entra. Nas comunidades rurais da Lunda Sul, um bispo, provavelmente, fala mais alto do que um governador.
Sendo
assim, esta visita é uma oportunidade rara. O Papa podia fazer referência ao que
está a acontecer. Podia dizer, sem eufemismo, que perseguir um idoso com
acusação de feitiçaria é um crime. Podia dizer que abandonar um ancião é uma
vergonha colectiva. Podia dizer que extrair diamantes de uma terra e deixar os
seus filhos na miséria é uma forma de violência.
Podia.
Mas a diplomacia papal tem os seus próprios interesses. E o governo angolano
tem os seus próprios interlocutores junto do Vaticano. O silêncio, se vier,
também será uma mensagem.
Existe uma medida simples de civilização: o modo como uma sociedade trata os seus velhos. Não os velhos do poder, porque esses têm escolta. Os velhos sem nome, sem influência, sem família disposta a protegê-los.
Por
isso, Angola não precisa de uma visita fotogénica à Lunda Sul. Precisa de mais casas
de acolhimento para idosos perseguidos. Precisa de um sistema judicial que
processe os agressores. Precisa de um Estado que esteja presente antes de o
problema chegar às câmeras de uma visita papal.
Afinal,
o diamante que a Lunda Sul exporta passa por muitas mãos antes de chegar a uma
jóia numa montra de Bruxelas ou de Lisboa. Nenhuma dessas mãos pertence ao
velho que dorme na rua esta noite. Isso não é tradição. É abandono com nome
diferente.
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