segunda-feira, 20 de abril de 2026

A visita que o diamante não merece, mas os velhos precisam

Hoje, o Papa Leão XIV pisa a Lunda Sul. As câmeras estarão lá. O protocolo também. E algures, a dois quilómetros de qualquer palco oficial, um ancião dorme na rua porque a família o expulsou de casa. Foi acusado ser feiticeiro. 

Não é uma coincidência que isto aconteça numa das províncias mais ricas do país. É uma lógica.

A Lunda Sul é, no mapa da riqueza angolana, uma anomalia moral. O subsolo vale fortunas. As empresas extractivas operam. O diamante sai bruto da terra da Lunda Sul e regressa polido, mas nunca ao pulso de quem o desenterrou.

No entanto, o que o cidadão comum conhece é outra coisa: estradas que não chegam, hospitais que funcionam por improviso, escolas sem professores suficientes, e uma pobreza que parece resistente a toda a riqueza que passa por baixo dos pés.

É precisamente quando um território é espoliado assim, quando as novas gerações crescem sem futuro visível, que algo se parte no tecido social. A frustração precisa de um destino. E frequentemente, esse destino são os mais velhos.

Ora, seria cómodo reduzir as acusações de feitiçaria a superstição pura. Seria também desonesto.

Na verdade, por detrás de muitas acusações há disputa de herança. Há conflitos sobre terreno. Há famílias desestruturadas pela migração, pela miséria, pela ausência do Estado como árbitro. O ancião acusado raramente é apenas uma vítima de crença. É, muitas vezes, um obstáculo económico identificado com uma linguagem que a comunidade reconhece e que o Estado não pune.

O resultado é concreto e documentado: idosos expulsos de casa, humilhados publicamente, espancados. E alguns, simplesmente, assassinados.

Angola tem legislação. Angola tem polícia. Contudo, para o velho acusado de feitiçaria na Lunda Sul, essa Angola abstracta e letrada é um país que não existe.

A Igreja Católica tem, em Angola, na minha óptica, um peso moral que o Estado há muito perdeu. A sua palavra chega onde o decreto não entra. Nas comunidades rurais da Lunda Sul, um bispo, provavelmente, fala mais alto do que um governador.

Sendo assim, esta visita é uma oportunidade rara. O Papa podia fazer referência ao que está a acontecer. Podia dizer, sem eufemismo, que perseguir um idoso com acusação de feitiçaria é um crime. Podia dizer que abandonar um ancião é uma vergonha colectiva. Podia dizer que extrair diamantes de uma terra e deixar os seus filhos na miséria é uma forma de violência.

Podia. Mas a diplomacia papal tem os seus próprios interesses. E o governo angolano tem os seus próprios interlocutores junto do Vaticano. O silêncio, se vier, também será uma mensagem.

Existe uma medida simples de civilização: o modo como uma sociedade trata os seus velhos. Não os velhos do poder, porque esses têm escolta. Os velhos sem nome, sem influência, sem família disposta a protegê-los.

Por isso, Angola não precisa de uma visita fotogénica à Lunda Sul. Precisa de mais casas de acolhimento para idosos perseguidos. Precisa de um sistema judicial que processe os agressores. Precisa de um Estado que esteja presente antes de o problema chegar às câmeras de uma visita papal.

Afinal, o diamante que a Lunda Sul exporta passa por muitas mãos antes de chegar a uma jóia numa montra de Bruxelas ou de Lisboa. Nenhuma dessas mãos pertence ao velho que dorme na rua esta noite. Isso não é tradição. É abandono com nome diferente.


sábado, 18 de abril de 2026

Semáforos para o Papa, escuridão para o Povo

Luanda acendeu-se. De repente, as ruas têm luz. Os semáforos funcionam. As bermas foram varridas. O asfalto reapareceu onde havia buracos. A cidade parece, por alguns dias, aquilo que nunca conseguiu ser para os seus habitantes: uma cidade.

A razão é conhecida: o Papa Leão vem a Angola.

E com ele vêm as câmaras. Vem a imprensa internacional. Vem o olhar do mundo. E o governo, que durante anos achou que a escuridão, o lixo e os buracos eram toleráveis para os angolanos, descobriu subitamente que tem meios, que tem vontade, que tem a capacidade de governar.

A questão que se impõe não é de logística. É moral.

Quando as obras acontecem em vésperas de uma visita papal, o argumento da falta de recursos colapsa. Não é que o Estado não possa iluminar as ruas, é que nunca achou que iluminá-las para os angolanos valesse o esforço. A falta de luz não é pobreza: é escolha. A falta de semáforos não é atraso: é desprezo.

Os moradores de Luanda, e de muitas cidades de Angola, circulam em avenidas maioritariamente às escuras, desviam-se de buracos que engolem rodas, vivem em bairros que o Estado só conhece na época de eleições ou de visitas ilustres. Essa realidade não é acidental. É o resultado de um Estado que governa para a audiência errada.

Há um padrão nosso país: o Estado lembra-se de governar quando vêm estrangeiros ver. Uma cimeira da União Africana, uma visita de Estado, uma competição internacional.  E de repente, o país funciona. As instituições respondem. Os serviços aparecem. A cidade respira.

Depois a visita vai-se embora. E com ela vai a luz.

Este modelo tem nome: governança performativa. Governa-se para a câmara, não para o cidadão. O angolano não é o destinatário das políticas públicas, é o cenário. É o pano de fundo na fotografia que o governo quer tirar com o Papa.

A visita papal, que deveria ser apenas um momento de espiritualidade e encontro, tornou-se involuntariamente um espelho. Um espelho que mostra, com crueldade, a distância entre o que o Estado é capaz de fazer e o que decide fazer. Essa distância é a medida exacta do desprezo pelo angolano comum.

Não se governa uma nação para impressionar os estrangeiros. Governa-se para garantir que cada cidadão, independentemente do seu bairro, do seu estatuto, da sua visibilidade, da sua cor partidária, vive com dignidade. Ruas iluminadas, semáforos a funcionar, cidades limpas: não são cortesias para visitantes. São direitos. Foram sempre direitos.

Quando o Papa Leão partir, o governo voltará à sua indiferença habitual. As luzes podem apagar-se. Os buracos podem reabrir. A sujidade pode voltar. E os angolanos, que nunca foram a verdadeira audiência, continuarão a esperar.

Mas há algo que uma visita destas não consegue apagar: a consciência de que a normalidade é possível. De que a cidade pode funcionar. De que a escuridão não é destino, é negligência. E essa consciência, uma vez acesa, não se apaga facilmente.

 

Kady Mixinge

 

Abril, 2026


O tabuleiro que ensina a pensar

 

O xadrez tem o potencial de transformar a educação das crianças angolanas.

Imaginemos duas crianças sentadas frente a frente, um tabuleiro entre elas, silêncio à volta. Nenhum ecrã, nenhuma electricidade, nenhuma internet, apenas o peso de cada decisão, apenas a consequência de cada movimento, e a descoberta lenta de que pensar, pensar de verdade, é uma habilidade que se treina.

O xadrez existe há mais de mil e quinhentos anos. Atravessou civilizações, guerras, impérios e revoluções tecnológicas. E continua, hoje, a ser reconhecido por investigadores, pedagogos e psicólogos como uma das ferramentas mais completas para o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança.

Em Angola, onde o sistema educativo enfrenta desafios enormes, turmas sobrelotadas, falta de professores especializados, ausência de materiais, o xadrez representa uma oportunidade singular. É um instrumento de excelência ao alcance de qualquer escola, em qualquer província.

Sendo um jogo de múltiplas aprendizagens, engana-se quem vê no xadrez apenas um passatempo intelectual para adultos. De facto, a investigação científica acumulada nas últimas décadas é clara: a prática regular do xadrez desde cedo produz melhorias mensuráveis em áreas fundamentais do desenvolvimento infantil.

Não se trata de criar génios; trata-se, antes, de activar capacidades que já existem em cada criança e que o sistema de ensino convencional muitas vezes não consegue despertar. Entre essas capacidades, destacam-se as seguintes:

O raciocínio lógico: o xadrez obriga a criança a estabelecer relações de causa e efeito, a formular hipóteses e a testar consequências, exactamente o que a matemática e as ciências exigem.

A concentração: uma partida de xadrez não admite distracções. A criança aprende, assim, a focar a atenção por períodos prolongados, habilidade decisiva em qualquer contexto de aprendizagem.

A tomada de decisão: cada jogada é uma decisão sob pressão. O xadrez ensina, por isso, que as escolhas têm consequências e que a precipitação tem um custo. Uma lição que ultrapassa largamente o tabuleiro.

A resiliência emocional: perder é parte do jogo. Aprender a aceitar a derrota, analisar os erros e recomeçar sem desespero é, sem dúvida, uma das lições mais valiosas que o xadrez oferece às crianças.

O pensamento estratégico: planear com antecipação, prever os movimentos do adversário, adaptar à estratégia em tempo real. Qualidades que, em última análise, formam líderes e resolvedores de problemas.

O respeito e o fair play: o xadrez tem regras, tem ritual. Ensina a respeitar o adversário, a cumprir o acordo e a jogar com dignidade. São, afinal, valores que estruturam o carácter.

A par disso, um estudo de campo independente realizado no Bangladesh (Journal of Economic Psychology, 2019), com crianças do ensino primário em zonas rurais e de parcos recursos, confirmou resultados positivos num contexto socioeconómico semelhante ao de muitas regiões angolanas. Os benefícios não dependem da riqueza da família, nem da qualidade da escola. Dependem da prática e de quem decide torná-la possível.

A neurociência acrescenta, ainda, uma dimensão importante: o xadrez activa simultaneamente os dois hemisférios cerebrais. Enquanto o hemisfério esquerdo processa a lógica e os padrões, o hemisfério direito trabalha a criatividade e a intuição. Jogar xadrez é, literalmente, um exercício completo para o cérebro em desenvolvimento, com custos próximos de zero.

Neste sentido, uma criança que aprende xadrez não está apenas a aprender a mover peças. Está a aprender que o mundo tem lógica, que as decisões têm peso, e que a inteligência, a sua inteligência, é uma ferramenta que pode ser afiada.

Angola, importa sublinhar, não parte do zero. A Federação Angolana de Xadrez tem desenvolvido esforços para promover o jogo a nível nacional. Há escolas que já introduziram o xadrez nas suas actividades extracurriculares, e há jovens angolanos que têm representado o país em competições continentais, e não só, com distinção. O que falta não é capacidade. O que falta é sistematização e vontade política de transformar uma prática esporádica num programa nacional.

O modelo existe e está provado. A Arménia foi o primeiro país do mundo a tornar a xadrez disciplina obrigatória no ensino primário, em 2011 e pode, por isso, servir de referência. O objectivo é claro: desenvolver o pensamento analítico, a concentração e a capacidade de decisão desde cedo. A implementação, ademais, não exige infra-estruturas especiais, electricidade ou internet. Exige tabuleiros, vontade política e professores minimamente formados, e tudo isso está ao alcance de Angola.

A título de exemplo, um tabuleiro de xadrez artesanal pode ser fabricado com cartão e tampas de garrafa. Em escolas sem energia eléctrica, no interior de Malanje ou no Cuando, o jogo funciona na mesma. O xadrez é, talvez, o único instrumento pedagógico de alto impacto que não precisa de nada que Angola não tenha já.

Acresce que os efeitos do xadrez na criança não se confinam ao espaço escolar. Uma criança que joga xadrez regularmente desenvolve uma relação diferente com o erro: em vez de o temer, aprende a analisá-lo, em vez de desistir perante a dificuldade, procura a jogada seguinte. Esta disposição mental, a de quem sabe que cada posição difícil tem uma solução, ainda que por encontrar, é exactamente o perfil que Angola precisa de formar para os desafios do seu desenvolvimento.

O xadrez actua, outrossim, como igualador social. Numa mesa de jogo, o filho de um médico e o filho de um carpinteiro enfrentam-se com as mesmas peças, as mesmas regras e as mesmas possibilidades. O tabuleiro não sabe de onde vem cada um. Sabe apenas quem pensa melhor. Num país marcado por desigualdades profundas, este é um valor que não pode ser subestimado.

Não é necessário, portanto, esperar por uma reforma curricular profunda. Importa reconhecer, antes de mais, que em muitos municípios de Angola, tanto em Luanda como nalgumas províncias, existem já núcleos isolados de xadrez que, com poucos meios e sem grande visibilidade, têm sido agentes silenciosos da promoção do jogo junto das comunidades locais. Esse trabalho de base é um activo que não pode ser ignorado. Bastaria, por isso, que o Ministério da Educação de Angola, em parceria com a Federação Angolana de Xadrez, com esses núcleos municipais e com organizações da sociedade civil, lançasse um programa piloto em cem escolas primárias, distribuídas pelas diferentes províncias, com formação básica de professores e dotação de tabuleiros. Os resultados, avaliados ao fim de dois anos lectivos, falariam, muito provavelmente, por si.

O investimento seria mínimo. O retorno, em crianças que pensam melhor, que resistem mais, que decidem com mais cuidado, seria imenso. E Angola, que tanto precisa de construir as suas próximas gerações com ferramentas sólidas, encontraria num jogo de origem milenar um aliado improvável e extraordinariamente eficaz.

Em suma, o futuro do nosso país não se decide nos salões do poder. Decide-se nas salas de aula e nos tabuleiros onde as crianças aprendem, silenciosamente, que pensar é a coisa mais poderosa que um ser humano pode fazer.

Um tabuleiro. Trinta e duas peças. Sessenta e quatro casas. E a possibilidade, real e documentada, de transformar a forma como uma criança angolana enfrenta o mundo. Em Angola, temos visto investimentos mais caros que renderam e têm rendido muito menos.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Proliferação de Igrejas e o Subdesenvolvimento em Angola

 

Quando a fé se torna indústria e a esperança substitui a exigência, o povo paga a conta duas vezes — na carteira e no futuro.

Angola tem igrejas a mais e escolas a menos. Em vários municípios de Luanda, o número de templos supera o de estabelecimentos de ensino público com condições mínimas de funcionamento. Este facto, por si só, não seria preocupante se as igrejas cumprissem apenas a sua função espiritual. O problema começa quando deixam de ser casas de culto para se tornarem negócios de esperança e agrava-se quando esse negócio prospera precisamente à custa da ignorância, da vulnerabilidade e da pobreza que afirma combater.

A correlação entre a proliferação religiosa e o subdesenvolvimento em Angola não é acidental. É estrutural. E percebê-la exige honestidade intelectual que poucos se permitem, por medo de soar impopular numa sociedade onde a fé é simultaneamente consolo e identidade.

O modelo dominante das igrejas que proliferam em Angola, maioritariamente de matriz neopentecostal, muitas delas de origem brasileira, nigeriana ou congolesa, não é o do serviço espiritual gratuito. É o de uma indústria sofisticada de extracção económica. O dízimo obrigatório de dez por cento do rendimento, as ofertas de "semente" prometendo retorno multiplicado, os pagamentos por sessões de "libertação", por "unções especiais" ou pelo simples acesso ao pastor, tudo isto constitui um fluxo contínuo de transferência de riqueza das famílias mais pobres para os líderes religiosos, tornando-os mais ricos.

 É uma redistribuição ao contrário. Enquanto os Estados modernos tributam os mais ricos para proteger os mais frágeis, este modelo tributa os mais frágeis para enriquecer os que já têm poder. O resultado visível são pastores que conduzem viaturas de luxo em bairros onde os seus fiéis não têm acesso à água canalizada.

A explicação sobrenatural do sofrimento é a mais eficaz das ferramentas de dominação. Quando a pobreza é um "ataque espiritual", o Estado não tem culpa e o povo não tem razão para exigir.

O segundo mecanismo, mais subtil e talvez mais pernicioso, é ideológico. Quando o desemprego, a doença, a miséria e o fracasso pessoal são sistematicamente explicados como resultado de "ataques espirituais", de "falta de fé" ou de "maldições geracionais", remove-se a análise das causas estruturais. O crente que atribui a sua pobreza a um demónio familiar não questiona o Estado que lhe nega emprego, educação ou saúde. Não exige políticas públicas fiáveis e consistentes. Não organiza resistência colectiva. O que faz? Volta para casa, jejua três dias, e paga mais uma oferta para "quebrar o feitiço".

É evidente que esta despolitização do sofrimento é extremamente conveniente para os governos que falham as suas populações. Não é coincidência que regimes autoritários em África cultivem relações próximas com os líderes religiosos mais influentes. A lógica é simples: uma população que explica os seus problemas em termos espirituais é uma população que não responsabiliza o poder político pelos seus problemas materiais. A Igreja legitima o poder e o poder protege a Igreja. O povo paga as contas de ambos.

Há um custo menos visível, mas igualmente real: o tempo. Em muitas comunidades urbanas angolanas, os crentes passam entre quinze a vinte horas semanais em actividades religiosas. Torram muito tempo em cultos de semana, vigílias nocturnas, estudos bíblicos, reuniões de célula, cultos de domingo. Este tempo aplicado à formação profissional, ao desenvolvimento de um negócio, ao estudo dos filhos, à participação cívica ou simplesmente ao descanso recuperador, teria um valor económico e social imenso. Não se trata de negar o direito à espiritualidade. Trata-se de reconhecer que o modelo de consumo religioso imposto por estas igrejas, que beneficiam directamente de uma filiação intensa e permanente, compete directamente com o desenvolvimento humano dos seus membros.

Como nota de equidade, sublinhar que seria desonesto ignorar o outro lado. Em muitas comunidades angolanas, as igrejas são a única rede de segurança social real. Alimentam crianças, acolhem doentes, mediam conflitos familiares e étnicos, fornecem redes de solidariedade. Onde o Estado angolano falha completamente, a igreja preenche o vazio. Portanto, o problema não está na função social que cumprem. O problema está no modelo de negócio que a envolve e na ideologia que impede os cidadãos de exigir que o Estado cumpra as suas obrigações. Logo, devemos perguntar: a proliferação de igrejas é causa do subdesenvolvimento angolano, ou é sintoma do mesmo? A resposta honesta seria: as duas coisas, simultaneamente. Sociedades com instituições estatais frágeis, sem horizontes económicos e com alta ansiedade existencial é terreno fértil para o negócio religioso. A incerteza cria procura de certezas sobrenaturais. A pobreza cria procura de milagres. A ausência de justiça cria procura de julgamento divino.

Mas o negócio, uma vez instalado, tem interesse em perpetuar as condições que o geraram. Uma população educada, crítica e com mobilidade económica ascendente é uma população menos susceptível à teologia da prosperidade, menos dependente de pastores como intermediários do divino, e menos disposta a entregar dez por cento do seu rendimento em troca de promessas não verificáveis. Por isso, consciente ou inconscientemente, este modelo eclesial tem interesse estrutural na manutenção da ignorância e da vulnerabilidade. É um ciclo que se auto-alimenta. A pobreza gera a dependência religiosa, a dependência religiosa aprofunda a pobreza. A pobreza aprofundada gera mais dependência religiosa. Quebrar este ciclo exige três coisas que o modelo actual tem interesse em suprimir. Uma educação pública de qualidade, um Estado social funcional e pensamento crítico generalizado.

O meu argumento não é contra a fé. A fé, na sua expressão genuína, é uma dimensão irredutível da experiência humana. O que está em causa é a instrumentalização da fé como mecanismo de extracção económica e de controlo social. Está em causa a diferença entre uma instituição que serve a sua comunidade e uma indústria que explora a vulnerabilidade da mesma.

Para concluir, afirmo com veemência que Angola merece igrejas que construam escolas em vez de condomínios privados para os seus pastores. Merece líderes religiosos que defendam os seus fiéis perante o Estado em vez de legitimarem os que os oprimem. Merece uma sociedade onde a esperança não seja um produto à venda e onde o futuro seja construído com trabalho, conhecimento e exigência cívica, e não aguardado de joelhos.

Enquanto Angola continuar a ter mais templos do que bibliotecas, mais vigílias do que oportunidades de formação, e mais pastores milionários do que engenheiros bem pagos, a equação do subdesenvolvimento permanecerá inalterada. Os demónios que nos afligem têm nomes concretos: má governação, petróleo amaldiçoado, educação desamparada, pensamento crítico anulado. E estes, não se exorcizam com ofertas. Exorcizam-se com cidadania.