segunda-feira, 20 de abril de 2026

A visita que o diamante não merece, mas os velhos precisam

Hoje, o Papa Leão XIV pisa a Lunda Sul. As câmeras estarão lá. O protocolo também. E algures, a dois quilómetros de qualquer palco oficial, um ancião dorme na rua porque a família o expulsou de casa. Foi acusado ser feiticeiro. 

Não é uma coincidência que isto aconteça numa das províncias mais ricas do país. É uma lógica.

A Lunda Sul é, no mapa da riqueza angolana, uma anomalia moral. O subsolo vale fortunas. As empresas extractivas operam. O diamante sai bruto da terra da Lunda Sul e regressa polido, mas nunca ao pulso de quem o desenterrou.

No entanto, o que o cidadão comum conhece é outra coisa: estradas que não chegam, hospitais que funcionam por improviso, escolas sem professores suficientes, e uma pobreza que parece resistente a toda a riqueza que passa por baixo dos pés.

É precisamente quando um território é espoliado assim, quando as novas gerações crescem sem futuro visível, que algo se parte no tecido social. A frustração precisa de um destino. E frequentemente, esse destino são os mais velhos.

Ora, seria cómodo reduzir as acusações de feitiçaria a superstição pura. Seria também desonesto.

Na verdade, por detrás de muitas acusações há disputa de herança. Há conflitos sobre terreno. Há famílias desestruturadas pela migração, pela miséria, pela ausência do Estado como árbitro. O ancião acusado raramente é apenas uma vítima de crença. É, muitas vezes, um obstáculo económico identificado com uma linguagem que a comunidade reconhece e que o Estado não pune.

O resultado é concreto e documentado: idosos expulsos de casa, humilhados publicamente, espancados. E alguns, simplesmente, assassinados.

Angola tem legislação. Angola tem polícia. Contudo, para o velho acusado de feitiçaria na Lunda Sul, essa Angola abstracta e letrada é um país que não existe.

A Igreja Católica tem, em Angola, na minha óptica, um peso moral que o Estado há muito perdeu. A sua palavra chega onde o decreto não entra. Nas comunidades rurais da Lunda Sul, um bispo, provavelmente, fala mais alto do que um governador.

Sendo assim, esta visita é uma oportunidade rara. O Papa podia fazer referência ao que está a acontecer. Podia dizer, sem eufemismo, que perseguir um idoso com acusação de feitiçaria é um crime. Podia dizer que abandonar um ancião é uma vergonha colectiva. Podia dizer que extrair diamantes de uma terra e deixar os seus filhos na miséria é uma forma de violência.

Podia. Mas a diplomacia papal tem os seus próprios interesses. E o governo angolano tem os seus próprios interlocutores junto do Vaticano. O silêncio, se vier, também será uma mensagem.

Existe uma medida simples de civilização: o modo como uma sociedade trata os seus velhos. Não os velhos do poder, porque esses têm escolta. Os velhos sem nome, sem influência, sem família disposta a protegê-los.

Por isso, Angola não precisa de uma visita fotogénica à Lunda Sul. Precisa de mais casas de acolhimento para idosos perseguidos. Precisa de um sistema judicial que processe os agressores. Precisa de um Estado que esteja presente antes de o problema chegar às câmeras de uma visita papal.

Afinal, o diamante que a Lunda Sul exporta passa por muitas mãos antes de chegar a uma jóia numa montra de Bruxelas ou de Lisboa. Nenhuma dessas mãos pertence ao velho que dorme na rua esta noite. Isso não é tradição. É abandono com nome diferente.


sábado, 18 de abril de 2026

Semáforos para o Papa, escuridão para o Povo

Luanda acendeu-se. De repente, as ruas têm luz. Os semáforos funcionam. As bermas foram varridas. O asfalto reapareceu onde havia buracos. A cidade parece, por alguns dias, aquilo que nunca conseguiu ser para os seus habitantes: uma cidade.

A razão é conhecida: o Papa Leão vem a Angola.

E com ele vêm as câmaras. Vem a imprensa internacional. Vem o olhar do mundo. E o governo, que durante anos achou que a escuridão, o lixo e os buracos eram toleráveis para os angolanos, descobriu subitamente que tem meios, que tem vontade, que tem a capacidade de governar.

A questão que se impõe não é de logística. É moral.

Quando as obras acontecem em vésperas de uma visita papal, o argumento da falta de recursos colapsa. Não é que o Estado não possa iluminar as ruas, é que nunca achou que iluminá-las para os angolanos valesse o esforço. A falta de luz não é pobreza: é escolha. A falta de semáforos não é atraso: é desprezo.

Os moradores de Luanda, e de muitas cidades de Angola, circulam em avenidas maioritariamente às escuras, desviam-se de buracos que engolem rodas, vivem em bairros que o Estado só conhece na época de eleições ou de visitas ilustres. Essa realidade não é acidental. É o resultado de um Estado que governa para a audiência errada.

Há um padrão nosso país: o Estado lembra-se de governar quando vêm estrangeiros ver. Uma cimeira da União Africana, uma visita de Estado, uma competição internacional.  E de repente, o país funciona. As instituições respondem. Os serviços aparecem. A cidade respira.

Depois a visita vai-se embora. E com ela vai a luz.

Este modelo tem nome: governança performativa. Governa-se para a câmara, não para o cidadão. O angolano não é o destinatário das políticas públicas, é o cenário. É o pano de fundo na fotografia que o governo quer tirar com o Papa.

A visita papal, que deveria ser apenas um momento de espiritualidade e encontro, tornou-se involuntariamente um espelho. Um espelho que mostra, com crueldade, a distância entre o que o Estado é capaz de fazer e o que decide fazer. Essa distância é a medida exacta do desprezo pelo angolano comum.

Não se governa uma nação para impressionar os estrangeiros. Governa-se para garantir que cada cidadão, independentemente do seu bairro, do seu estatuto, da sua visibilidade, da sua cor partidária, vive com dignidade. Ruas iluminadas, semáforos a funcionar, cidades limpas: não são cortesias para visitantes. São direitos. Foram sempre direitos.

Quando o Papa Leão partir, o governo voltará à sua indiferença habitual. As luzes podem apagar-se. Os buracos podem reabrir. A sujidade pode voltar. E os angolanos, que nunca foram a verdadeira audiência, continuarão a esperar.

Mas há algo que uma visita destas não consegue apagar: a consciência de que a normalidade é possível. De que a cidade pode funcionar. De que a escuridão não é destino, é negligência. E essa consciência, uma vez acesa, não se apaga facilmente.

 

Kady Mixinge

 

Abril, 2026


O tabuleiro que ensina a pensar

 

O xadrez tem o potencial de transformar a educação das crianças angolanas.

Imaginemos duas crianças sentadas frente a frente, um tabuleiro entre elas, silêncio à volta. Nenhum ecrã, nenhuma electricidade, nenhuma internet, apenas o peso de cada decisão, apenas a consequência de cada movimento, e a descoberta lenta de que pensar, pensar de verdade, é uma habilidade que se treina.

O xadrez existe há mais de mil e quinhentos anos. Atravessou civilizações, guerras, impérios e revoluções tecnológicas. E continua, hoje, a ser reconhecido por investigadores, pedagogos e psicólogos como uma das ferramentas mais completas para o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança.

Em Angola, onde o sistema educativo enfrenta desafios enormes, turmas sobrelotadas, falta de professores especializados, ausência de materiais, o xadrez representa uma oportunidade singular. É um instrumento de excelência ao alcance de qualquer escola, em qualquer província.

Sendo um jogo de múltiplas aprendizagens, engana-se quem vê no xadrez apenas um passatempo intelectual para adultos. De facto, a investigação científica acumulada nas últimas décadas é clara: a prática regular do xadrez desde cedo produz melhorias mensuráveis em áreas fundamentais do desenvolvimento infantil.

Não se trata de criar génios; trata-se, antes, de activar capacidades que já existem em cada criança e que o sistema de ensino convencional muitas vezes não consegue despertar. Entre essas capacidades, destacam-se as seguintes:

O raciocínio lógico: o xadrez obriga a criança a estabelecer relações de causa e efeito, a formular hipóteses e a testar consequências, exactamente o que a matemática e as ciências exigem.

A concentração: uma partida de xadrez não admite distracções. A criança aprende, assim, a focar a atenção por períodos prolongados, habilidade decisiva em qualquer contexto de aprendizagem.

A tomada de decisão: cada jogada é uma decisão sob pressão. O xadrez ensina, por isso, que as escolhas têm consequências e que a precipitação tem um custo. Uma lição que ultrapassa largamente o tabuleiro.

A resiliência emocional: perder é parte do jogo. Aprender a aceitar a derrota, analisar os erros e recomeçar sem desespero é, sem dúvida, uma das lições mais valiosas que o xadrez oferece às crianças.

O pensamento estratégico: planear com antecipação, prever os movimentos do adversário, adaptar à estratégia em tempo real. Qualidades que, em última análise, formam líderes e resolvedores de problemas.

O respeito e o fair play: o xadrez tem regras, tem ritual. Ensina a respeitar o adversário, a cumprir o acordo e a jogar com dignidade. São, afinal, valores que estruturam o carácter.

A par disso, um estudo de campo independente realizado no Bangladesh (Journal of Economic Psychology, 2019), com crianças do ensino primário em zonas rurais e de parcos recursos, confirmou resultados positivos num contexto socioeconómico semelhante ao de muitas regiões angolanas. Os benefícios não dependem da riqueza da família, nem da qualidade da escola. Dependem da prática e de quem decide torná-la possível.

A neurociência acrescenta, ainda, uma dimensão importante: o xadrez activa simultaneamente os dois hemisférios cerebrais. Enquanto o hemisfério esquerdo processa a lógica e os padrões, o hemisfério direito trabalha a criatividade e a intuição. Jogar xadrez é, literalmente, um exercício completo para o cérebro em desenvolvimento, com custos próximos de zero.

Neste sentido, uma criança que aprende xadrez não está apenas a aprender a mover peças. Está a aprender que o mundo tem lógica, que as decisões têm peso, e que a inteligência, a sua inteligência, é uma ferramenta que pode ser afiada.

Angola, importa sublinhar, não parte do zero. A Federação Angolana de Xadrez tem desenvolvido esforços para promover o jogo a nível nacional. Há escolas que já introduziram o xadrez nas suas actividades extracurriculares, e há jovens angolanos que têm representado o país em competições continentais, e não só, com distinção. O que falta não é capacidade. O que falta é sistematização e vontade política de transformar uma prática esporádica num programa nacional.

O modelo existe e está provado. A Arménia foi o primeiro país do mundo a tornar a xadrez disciplina obrigatória no ensino primário, em 2011 e pode, por isso, servir de referência. O objectivo é claro: desenvolver o pensamento analítico, a concentração e a capacidade de decisão desde cedo. A implementação, ademais, não exige infra-estruturas especiais, electricidade ou internet. Exige tabuleiros, vontade política e professores minimamente formados, e tudo isso está ao alcance de Angola.

A título de exemplo, um tabuleiro de xadrez artesanal pode ser fabricado com cartão e tampas de garrafa. Em escolas sem energia eléctrica, no interior de Malanje ou no Cuando, o jogo funciona na mesma. O xadrez é, talvez, o único instrumento pedagógico de alto impacto que não precisa de nada que Angola não tenha já.

Acresce que os efeitos do xadrez na criança não se confinam ao espaço escolar. Uma criança que joga xadrez regularmente desenvolve uma relação diferente com o erro: em vez de o temer, aprende a analisá-lo, em vez de desistir perante a dificuldade, procura a jogada seguinte. Esta disposição mental, a de quem sabe que cada posição difícil tem uma solução, ainda que por encontrar, é exactamente o perfil que Angola precisa de formar para os desafios do seu desenvolvimento.

O xadrez actua, outrossim, como igualador social. Numa mesa de jogo, o filho de um médico e o filho de um carpinteiro enfrentam-se com as mesmas peças, as mesmas regras e as mesmas possibilidades. O tabuleiro não sabe de onde vem cada um. Sabe apenas quem pensa melhor. Num país marcado por desigualdades profundas, este é um valor que não pode ser subestimado.

Não é necessário, portanto, esperar por uma reforma curricular profunda. Importa reconhecer, antes de mais, que em muitos municípios de Angola, tanto em Luanda como nalgumas províncias, existem já núcleos isolados de xadrez que, com poucos meios e sem grande visibilidade, têm sido agentes silenciosos da promoção do jogo junto das comunidades locais. Esse trabalho de base é um activo que não pode ser ignorado. Bastaria, por isso, que o Ministério da Educação de Angola, em parceria com a Federação Angolana de Xadrez, com esses núcleos municipais e com organizações da sociedade civil, lançasse um programa piloto em cem escolas primárias, distribuídas pelas diferentes províncias, com formação básica de professores e dotação de tabuleiros. Os resultados, avaliados ao fim de dois anos lectivos, falariam, muito provavelmente, por si.

O investimento seria mínimo. O retorno, em crianças que pensam melhor, que resistem mais, que decidem com mais cuidado, seria imenso. E Angola, que tanto precisa de construir as suas próximas gerações com ferramentas sólidas, encontraria num jogo de origem milenar um aliado improvável e extraordinariamente eficaz.

Em suma, o futuro do nosso país não se decide nos salões do poder. Decide-se nas salas de aula e nos tabuleiros onde as crianças aprendem, silenciosamente, que pensar é a coisa mais poderosa que um ser humano pode fazer.

Um tabuleiro. Trinta e duas peças. Sessenta e quatro casas. E a possibilidade, real e documentada, de transformar a forma como uma criança angolana enfrenta o mundo. Em Angola, temos visto investimentos mais caros que renderam e têm rendido muito menos.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Proliferação de Igrejas e o Subdesenvolvimento em Angola

 

Quando a fé se torna indústria e a esperança substitui a exigência, o povo paga a conta duas vezes — na carteira e no futuro.

Angola tem igrejas a mais e escolas a menos. Em vários municípios de Luanda, o número de templos supera o de estabelecimentos de ensino público com condições mínimas de funcionamento. Este facto, por si só, não seria preocupante se as igrejas cumprissem apenas a sua função espiritual. O problema começa quando deixam de ser casas de culto para se tornarem negócios de esperança e agrava-se quando esse negócio prospera precisamente à custa da ignorância, da vulnerabilidade e da pobreza que afirma combater.

A correlação entre a proliferação religiosa e o subdesenvolvimento em Angola não é acidental. É estrutural. E percebê-la exige honestidade intelectual que poucos se permitem, por medo de soar impopular numa sociedade onde a fé é simultaneamente consolo e identidade.

O modelo dominante das igrejas que proliferam em Angola, maioritariamente de matriz neopentecostal, muitas delas de origem brasileira, nigeriana ou congolesa, não é o do serviço espiritual gratuito. É o de uma indústria sofisticada de extracção económica. O dízimo obrigatório de dez por cento do rendimento, as ofertas de "semente" prometendo retorno multiplicado, os pagamentos por sessões de "libertação", por "unções especiais" ou pelo simples acesso ao pastor, tudo isto constitui um fluxo contínuo de transferência de riqueza das famílias mais pobres para os líderes religiosos, tornando-os mais ricos.

 É uma redistribuição ao contrário. Enquanto os Estados modernos tributam os mais ricos para proteger os mais frágeis, este modelo tributa os mais frágeis para enriquecer os que já têm poder. O resultado visível são pastores que conduzem viaturas de luxo em bairros onde os seus fiéis não têm acesso à água canalizada.

A explicação sobrenatural do sofrimento é a mais eficaz das ferramentas de dominação. Quando a pobreza é um "ataque espiritual", o Estado não tem culpa e o povo não tem razão para exigir.

O segundo mecanismo, mais subtil e talvez mais pernicioso, é ideológico. Quando o desemprego, a doença, a miséria e o fracasso pessoal são sistematicamente explicados como resultado de "ataques espirituais", de "falta de fé" ou de "maldições geracionais", remove-se a análise das causas estruturais. O crente que atribui a sua pobreza a um demónio familiar não questiona o Estado que lhe nega emprego, educação ou saúde. Não exige políticas públicas fiáveis e consistentes. Não organiza resistência colectiva. O que faz? Volta para casa, jejua três dias, e paga mais uma oferta para "quebrar o feitiço".

É evidente que esta despolitização do sofrimento é extremamente conveniente para os governos que falham as suas populações. Não é coincidência que regimes autoritários em África cultivem relações próximas com os líderes religiosos mais influentes. A lógica é simples: uma população que explica os seus problemas em termos espirituais é uma população que não responsabiliza o poder político pelos seus problemas materiais. A Igreja legitima o poder e o poder protege a Igreja. O povo paga as contas de ambos.

Há um custo menos visível, mas igualmente real: o tempo. Em muitas comunidades urbanas angolanas, os crentes passam entre quinze a vinte horas semanais em actividades religiosas. Torram muito tempo em cultos de semana, vigílias nocturnas, estudos bíblicos, reuniões de célula, cultos de domingo. Este tempo aplicado à formação profissional, ao desenvolvimento de um negócio, ao estudo dos filhos, à participação cívica ou simplesmente ao descanso recuperador, teria um valor económico e social imenso. Não se trata de negar o direito à espiritualidade. Trata-se de reconhecer que o modelo de consumo religioso imposto por estas igrejas, que beneficiam directamente de uma filiação intensa e permanente, compete directamente com o desenvolvimento humano dos seus membros.

Como nota de equidade, sublinhar que seria desonesto ignorar o outro lado. Em muitas comunidades angolanas, as igrejas são a única rede de segurança social real. Alimentam crianças, acolhem doentes, mediam conflitos familiares e étnicos, fornecem redes de solidariedade. Onde o Estado angolano falha completamente, a igreja preenche o vazio. Portanto, o problema não está na função social que cumprem. O problema está no modelo de negócio que a envolve e na ideologia que impede os cidadãos de exigir que o Estado cumpra as suas obrigações. Logo, devemos perguntar: a proliferação de igrejas é causa do subdesenvolvimento angolano, ou é sintoma do mesmo? A resposta honesta seria: as duas coisas, simultaneamente. Sociedades com instituições estatais frágeis, sem horizontes económicos e com alta ansiedade existencial é terreno fértil para o negócio religioso. A incerteza cria procura de certezas sobrenaturais. A pobreza cria procura de milagres. A ausência de justiça cria procura de julgamento divino.

Mas o negócio, uma vez instalado, tem interesse em perpetuar as condições que o geraram. Uma população educada, crítica e com mobilidade económica ascendente é uma população menos susceptível à teologia da prosperidade, menos dependente de pastores como intermediários do divino, e menos disposta a entregar dez por cento do seu rendimento em troca de promessas não verificáveis. Por isso, consciente ou inconscientemente, este modelo eclesial tem interesse estrutural na manutenção da ignorância e da vulnerabilidade. É um ciclo que se auto-alimenta. A pobreza gera a dependência religiosa, a dependência religiosa aprofunda a pobreza. A pobreza aprofundada gera mais dependência religiosa. Quebrar este ciclo exige três coisas que o modelo actual tem interesse em suprimir. Uma educação pública de qualidade, um Estado social funcional e pensamento crítico generalizado.

O meu argumento não é contra a fé. A fé, na sua expressão genuína, é uma dimensão irredutível da experiência humana. O que está em causa é a instrumentalização da fé como mecanismo de extracção económica e de controlo social. Está em causa a diferença entre uma instituição que serve a sua comunidade e uma indústria que explora a vulnerabilidade da mesma.

Para concluir, afirmo com veemência que Angola merece igrejas que construam escolas em vez de condomínios privados para os seus pastores. Merece líderes religiosos que defendam os seus fiéis perante o Estado em vez de legitimarem os que os oprimem. Merece uma sociedade onde a esperança não seja um produto à venda e onde o futuro seja construído com trabalho, conhecimento e exigência cívica, e não aguardado de joelhos.

Enquanto Angola continuar a ter mais templos do que bibliotecas, mais vigílias do que oportunidades de formação, e mais pastores milionários do que engenheiros bem pagos, a equação do subdesenvolvimento permanecerá inalterada. Os demónios que nos afligem têm nomes concretos: má governação, petróleo amaldiçoado, educação desamparada, pensamento crítico anulado. E estes, não se exorcizam com ofertas. Exorcizam-se com cidadania.


terça-feira, 10 de maio de 2011

O Angolano e o Thomas Paine


-….
- Visão quê?
- Visão democrática.
- De quem?
- Thomas Paine.
- Thomas quê?
- Thomas Paine.
- É angolano?

- Não, não é. Com este nome seria muito difícil, mas bem poderia sê-lo. Seria da nova geração. Da nova geração de angolanos que nascem em Londres ou Nova Iorque cujos pais optam por um nome de lá para “internacionalizar e globalizar” os seus filhos, da geração que quer um país organizado, um país no qual as pessoas são valorizadas e julgadas pelo seu carácter, independentemente da origem, raça, credo religioso, filiação partidária. Da geração sabe que a melhor riqueza do seu país é a pessoa humana, que os verdadeiros jazigos de diamantes e minas de ouro e prata são as pessoas, que tudo o resto é complementar. Da geração que vai às manifestações de livre e espontânea vontade, e não vai por pressão de quem quer que seja. Da geração que viveu e continua a viver de certa forma a ditadura, e acredita que ela não é a nossa sina. Da geração que se orgulha da dedicação e esforço dos KOTAS na luta pela libertação de Angola, mas que também não aceita nem admite que alguns KOTAS brinquem com a sua inteligência. Da geração que está para o que der e vier, e sabe lá no fundo que, somos mais ricos na diversidade, somos mais completos na unidade. Quem foi Thomas Paine? Thomas Paine foi um dos pais fundadores dos Estados Unidos da América. Britânico de origem, Paine emigrou para as colónias britânicas na América do Norte aos 37 anos de idade, participando activamente na revolução americana, contribuiu de forma incansável no processo que culminou com a independência dos Estados Unidos da América do Reino da Grã-Bretanha em 1776. Tanto mais que quando se fala da Revolução Americana, um dos primeiros nomes que aparece, é Thomas Paine. Ele também marcou presença na Revolução Francesa. Que relação entre Thomas Paine e os Angolanos? Porque trago Thomas Paine à baila? Simplesmente, pelo facto de ele ter escrito um livro que eu considero muito interessante. O livro chama-se “Common Sense” que em português significa “Senso Comum”. “Senso Comum” é um hino à liberdade, à democracia e à justiça social, bastante criticada no seu tempo, é uma obra que ficou na história mais pelo seu lado positivo do que o negativo.

- Eu sou mwangolé. O que é que tenho a ver com isso?

- Pois, aí é que está, “Senso Comum” é uma obra que bem poderia ter sido escrita em pleno século XXI por um angolano que sentisse que a democracia em Angola é uma fachada; por um angolano que sentisse que existe abuso de poder em Angola; por um angolano cansado de ter medo de perder os seus direitos e liberdades por expressar as suas opiniões. Um angolano esclarecido e comprometido com valores universais, certamente, escreveria “Senso Comum” baseado, como é lógico, na nossa realidade. “Senso Comum” escrito há mais de um século atrás, parece tão actual e ajusta-se, com a justa distância, tão bem a nossa realidade que, eu cheguei a desejar que Thomas Paine tivesse nascido em Angola. Há Thomas Paines em Angola? Com mesma visão e não só? Acredito que sim. Precisamos deles.

- Ok, já percebi. Tu queres que o Thomas Paine seja o Presidente de Angola.

- Não percebeste nada. Estou a falar da visão democrática…epá, estou cansado, amanhã, explico-te melhor. Um abraço.

- Humm…

quinta-feira, 24 de março de 2011

Bajulações e outros "esquemas" para (sobre) viver


Há muito que observo o fenómeno da bajulação que não é só um problema de Angola ou de África é um problema mundial.

Mas como sempre ou quase sempre, nos países pobres como o nosso, o fenómeno “bajula” como lhe chamo é mais evidente.

Os bajuladores têm atitudes confrangedoras que para mim conformam um grave desvio de carácter ou falta dele, mas deixo isto para os especialistas (psicólogos sobretudo). Têm grande necessidade de mostrar serviço sem nada fazerem, carregam a mala do chefe, esperam o chefe à porta para dar as últimas novidades que invariavelmente são sempre a favor.Triste. Na profissão que exerço o problema é ainda mais grave, porque troca-se a verdade pela mentira para ver se se ganham uns “míseros” trocados em alguns casos ou balúrdios noutros.

Há quem diga que as dificuldades da vida “obrigaram” as pessoas a criarem formas de sobrevivência que passam por juntar-se a quem tem capital financeiro, falar bem destas pessoas, ainda que estejam erradas e esperar que estas mesmas pessoas deixem cair uma “fezada” que pode ser um carro, uma casa ou dinheiro. Mas será que não existe outra opção de vida? Na minha opinião existe. Penso que é possível viver apenas do salário ou de pequenos trabalhos ou negócios sem prejuízo do próximo, é possível. É uma opção mais difícil, mais dura, mas que dá muito mais prazer. É tão bom andar de cabeça erguida pelas ruas, deitar à noite e ter um sono tranquilo, é tão bom que vale a pena o sacrifício.

Os bajuladores, (lá está outra vez a psicologia) não têm confiança nas suas capacidades, não confiam nos seus conhecimentos (se é que têm) por isso preferem ser humilhados, engolir sapos, para não perderem o que conseguiram na “bajula”. A minha consciência não permite isso, graças à Deus e a minha família que me inculcou ideias e ideais que por mais que lute nunca conseguirei abandonar, é lutar contra natura.

Cada vez mais me convenço que basta ter cabeça, braços e pernas para vencer na vida, sem necessidade de outros “esquemas” que não o do saber, do conhecimento, da lealdade, e da honra.

Daqui a minha vénia, sobretudo aos jovens que confiam na sua cabeça continuem assim meus amigos, ao contrário de outros que preferem o facilitismo. Sou daqueles que vive do salário, salário que não é muito bom (nunca é bom mesmo) mas digo já, a minha alma não está à venda.

Mateus Gaspar
24.03.11

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cambwá’s, tchuco – tchuco’s, windeck’s e outras frustrações


Não nego que as actividades lúdicas (ou divertimentos) sejam parte fundamental das nossas vidas. Há mesmo quem afirme que as 24h00 do dia estão bem distribuídas: Oito horas de sono, oito de trabalho e oito de divertimento (muito não?). Nos tempos que correm, temos cada vez mais opções para nos distrairmos, mas o rol de futilidades que abundam por aí é frustrante.
Será que diversão, passatempo ou o que quisermos chamar, significa banalidade ou actos menos reflectidos? Porque entre as diversões da “nossa malta” cada vez mais aparecem convites para festa do bumbum dourado (essa foi travada), da saia curta, da t –shirt molhada (os seios ficam à mostra), concursos de do cambwá, embora os cães não dancem assim e outras que nada dignificam os humanos. Mais grave, na minha visão é o que se passa nestas festas e noutros sítios.
Inventaram windeck, do cambwá, agora é o tchuco-tchuco. Cada um pensa e age como entender. Mas quando este agir já começa a prejudicar uma sociedade, a forma de agir deste alguém já não lhe diz só respeito. Aqui penso que uns têm mais responsabilidades que outros, porque senão um dia começam a apresentar o do cambwá ou o tchuco como dança tradicional de Angola. Quer dizer mostrar as nádegas (o rabo mesmo), tirar as cuecas com pensos higiénicos a voarem como já vi, arrastar-se pelo chão a levantar as nádegas e as pernas, um homem atrás e a mulher à frente como se estivessem num acto sexual, a fazerem “tchuco –tchuco lá dentroooó” é dança. Definitivamente para mim é frustrante. Coisa que só se mostra ao nosso parceiro, agora em qualquer diversão é quase obrigatório mostrar, “mostra tudo mostra” diz a música (é mesmo música?). Há uns tempos num programa de televisão um conhecido coreógrafo e outros acompanhantes, não sei se no afã de defender o cú duro, ou mesmo por convicção baseada em ciência dizia que todo movimento do corpo em harmonia com a música era dança. Agora pergunto, estes movimentos de mostrar o que não se deve em público até têm alguma harmonia com a música, mas é dança também? Bom se for, recuso-me aceitar.
Falando em televisão, os programas dirigidos especificamente a nós jovens, são de uma “pobreza Franciscana” que não lembram nada nem ninguém e sobrevivem. Para os que são absolutamente necessários como os que a Endemol vende para quase todos os países (Jogo duplo, Elo mais fraco e outros) nunca há dinheiro, mas estes de mostrar o rabo e as mamas (em alguns casos bonitos, não sou hipócrita) e com os apresentadores também no rame - rame há sempre. Nós até já tivemos esses programas, lembro-me do Quem Sabe Sabe e outro que não me vem a memória, seria bom retomarmos.
Há outros divertimentos certamente melhores para alguns e que ajudam a passar o tempo de forma mais saudável. Cada um tem as suas opções. Um bom jogo de xadrez, por exemplo, desenvolve outras capacidades. O cérebro mesmo em relaxe está em actividade. Um bom jogo de “Não te irrites” (cuidado para não apanharem munguadas) também é bom, damas, livros (agarrem-se aos livros meus amigos), sueca e depois aí sim, uma boa festa sabe bem.
Que fique bem claro, não acho piada nenhuma nos cambwá’s, windeck’s e  tchuco-tchucos. Se isto é modernismo, prefiro ser antiquado. Digam o que disserem.     

           Mateus Gaspar
               
               27.01.11

sábado, 18 de dezembro de 2010

Afinal, somos solidários!



Nos dias que correm, ouvimos as pessoas dizerem que a nossa sociedade perdeu os valores éticos e morais e que muitos bons costumes estão na corda bamba. Nos dias que correm, as informações sobre crianças que são acusadas de feitiçaria são cada vez mais assustadoras. Nos dias que correm, somos inundados de notícias sobre idosos que são abandonados em hospitais e lares da terceira idade pelos seus familiares. Tudo isso ocorre numa época em que a sociedade angolana tenta resgatar os valores perdidos. Ocorre, também, numa época em que o ter é mais importante que o ser. Felizmente, tem havido minúsculos actos de solidariedade e de boa vontade que fazem a diferença.

Assistimos, recentemente, um acto puro e raro de solidariedade. Foi no dia 2 de Dezembro de 2010, numa quinta-feira, na cidade de Luanda, nos estúdios da Rádio Luanda. Vimos uma manifestação de solidariedade diferente. Temos visto actos de solidariedade em Angola, mas, aquele foi especial pela espontaneidade e compromisso que teve. Temos vistos, isso sim, actos de solidariedade de carácter, marcadamente, político e propagandista. Aquele do dia 2, não foi nada disso. Foi só uma demonstração do quanto a sociedade civil pode fazer por esta Angola.

Tudo começou quando o radialista Mateus Cristóvão, como sempre, jovial e bem-disposto, apresentou aos ouvintes da Rádio Luanda, o caso de um jovem que tinha uma dificuldade na fala e que respirava por um tubo. Seguidamente, Mateus Cristóvão deu a palavra ao jovem que, mal começou a falar, escutámos uma voz que lutava para sair daquelas cordas vocais. Nos apercebemos que o aparelho fonador daquele jovem estava debilitado. Nos apercebemos que ele respirava com muita dificuldade e, que havia um sopro ressonante que se seguia a sua voz. De facto, escutá-lo foi arrepiante. À medida que o tempo ia passando a sua voz, simultaneamente, tornava-se audível e perceptível.

Carlos – o nome do jovem – fazia um esforço titânico para explicar o problema que tinha. Segundo os médicos que ele consultara, ele tinha um câncer na laringe e, que a sua laringe precisava de ser operada urgentemente, caso contrário, corria o risco de perder a voz. Os médicos disseram-lhe também, que não havia (até aquela data) em Angola condições para a realização duma operação daquela natureza.  Os médicos aconselharam-no a reunir  os  meios financeiros para poder se deslocar ao Brasil, onde poderia, por um preço de oito mil dólares americanos, ter acesso à uma operação.
Carlos falou das dificuldades que, inicialmente, encontrou no seu contacto com os médicos. Foi à Junta Nacional de Saúde, mas só apanhou bailes e lições de burocracia. Nascido no seio de uma família pobre, ele já não sabia a quem recorrer. 

Carlos, enquanto contava todo o drama, imprimiu, de forma natural, sem fingimentos ou vitimismos, muita emotividade nas suas palavras. Pelas minhas ondas hertzianas, senti na voz dele, desespero e frustração, ao mesmo tempo, senti o poder que a força de vontade pode exercer num ser humano, senti o desejo de viver de um jovem que, não aceitava resignar-se àquela condição. Senti a coragem de um angolano que não perdeu a fé, diante da adversidade, mas, levantou-se e foi à luta! É obra! Carlos tentou, durante três dias consecutivos, ter acesso à cabina de locutores da Rádio Luanda. Nada! Pediu aos guardas da Rádio Luanda que lhe pusessem em contacto com alguém importante daquela empresa. Nada! Até que o jornalista Mateus Cristóvão, como que enviado pelo criador do universo, permitiu a entrada de Carlos nos Estúdios da Rádio Luanda, dando-lhe a impagável oportunidade de expor o seu problema. E Carlos fê-lo, com muita tranquilidade e sobriedade. 

Feita a exposição do problema, logo a seguir, Mateus Cristóvão disse ao Carlos que aquela era a ajuda possível da Rádio ou seja que ele pudesse dar a conhecer à sociedade o seu problema. Entretanto, o apelo havia sido lançado à sociedade. E, a sociedade reagiu! Há muita boa gente na sociedade civil, diga-se de passagem! Será que um governo da Sociedade Civil faria melhor em Angola? Quem sabe?... As demonstrações de solidariedade foram sucedendo-se uma atrás da outra. O telefone não parava de tocar! Pessoas anónimas, pessoas identificadas, pequenas empresas privadas, todo mundo queria participar. Todo mundo queria contribuir, nem que fosse só com mil kwanzas. No meio de tantas chamadas telefónicas, todas elas oportunas, houve uma que foi oportuníssima. Foi o de uma senhora que disse que o seu esposo teve o mesmo problema, que havia sido operado na Namíbia e, que as despesas da operação rondaram os quatro mil dólares americanos. A senhora predispôs-se a fornecer ao Carlos toda ajuda necessária, no que toca a informações sobre o hospital, os médicos e os contactos de angolanos que vivem na Namíbia que ajudariam o Carlos enquanto lá estivesse.

Meia hora depois, Carlos não só obteve quase quatro mil dólares, como também já lhe tinha sido assegurado o bilhete de passagem para si e para a acompanhante, que seria a sua irmã mais velha. Comovido, Carlos agradeceu a Deus e todas as pessoas que, num esforço conjunto, eliminaram a dificuldade financeira que o impedia de levar a cabo uma viagem ao estrangeiro. Foi emocionante.

Este episódio na vida de Carlos e de todos que se predispuseram a ajudá-lo, trouxe-me à memória a imponente obra cinematográfica da realizadora norte-americana Mimi Leder. Trata-se de “Favores em Cadeia”, cujo título original é “Pay it Foward”. A sinopse deste filme pode ser, eventualmente, compactada numa pergunta: Que podemos fazer para mudar o mundo? “Favores em Cadeia” é um romance inesquecível que nos faz pensar que, talvez, não é assim tão difícil mudar o mundo. Por vezes, bastam pequenos gestos que podem resultar em mudanças significativas. O enredo de “Favores em Cadeia” apresenta-nos um Professor de Estudos Sociais, Reuben St. Clair, interpretado pelo “oscarizado” Kevin Spacey, que decide um dia propor aos seus alunos, como uma espécie de avaliação contínua, que tentem encontrar uma ideia para alterar o mundo e pô-la em prática. Trevor, interpretado por Haley Joel Osment, aquele garoto do filme “O Sexto Sentido”, é um dos seus alunos, tem então uma ideia que, à partida parece bastante descabida e sem pernas para andar. Ele decide ajudar três pessoas sem lhes pedir nada em troca a não ser que cada uma delas faça o mesmo a outras três e assim sucessivamente. E, para surpresa geral, aquilo que no início parecia uma simples utopia de criança transforma-se, em pouco tempo, numa colossal onda de solidariedade que percorre toda a América. 

Tal como os obstáculos que, Trevor encontrou para dar seguimento à sua ideia, a odisseia de Carlos também se nos apresenta cheia de acidentes de percurso e peripécias. Que ponto em comum tem a ficção de Trevor e a realidade de Carlos? A forma natural e espontânea que a sociedade  civil  abordou as questões.

Os valores éticos e morais da sociedade angolana, ainda, tem acérrimos defensores teóricos e práticos. Só basta que haja momentos livres e puros, sem os habituais manipuladores mediáticos que só se apresentam para dar show. Nem tudo está perdido, apesar do pesares. Afinal, somos solidários!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

É o nosso tempo!


Escrevi estas linhas com o intuito de dedicá-las à juventude angolana, mas não podia, por uma questão de respeito e consideração, antes de mergulhar no artigo, deixar de dar primazia aos nossos mais velhos que lutaram pela independência deste país e agradecê-los por tudo o que fizeram pela pátria angolana. É fundamental, deixar claro que nós jovens angolanos estamos eternamente agradecidos e orgulhosos de toda a vossa dedicação e empenho pela luta de libertação de Angola. Sejais vós do MPLA, da UNITA, da UPA, da FNLA, sejais vós, aqueles que na clandestinidade contribuíram para a nossa autodeterminação e independência, só queria dizer-vos muito obrigado, muito obrigado mesmo.
Mergulhando no artigo, começo por dizer que nós, jovens angolanos, temos uma missão. Uma missão que exige duas coisas inegociáveis, patriotismo e compromisso. Estamos no ano 2010 e, embora estejamos acerca de trinta anos independentes, oito anos de paz, muita coisa precisa de ser feita em prol do desenvolvimento da nação angolana. Seria injusto esperar que, em menos de uma década os grandes problemas da nação fossem resolvidos, isso seria irrealista e pouco objectivo. Estou convencido de que o país precisa de avançar. Indiscutivelmente. Mas, coloca-se a seguinte questão, será que os actuais dirigentes do país têm suficiente bagagem ética, moral, espiritual e intelectual para estabelecer as bases para a construção d’Angola do futuro? Pessoalmente, penso que não, porque já passamos pela 1ªRepublica, pela 2ªRepública, agora estamos na 3ªRepublica, mas, os governantes são os mesmos de sempre.
Me perguntarão, mas o que é Angola do Futuro, responderei que Angola do futuro é àquela na qual a justiça social reina na sociedade, é aquela na qual a democracia é uma pratica institucional e não um discurso institucional, é aquela na qual a sociedade civil é dinâmica e muito mais participativa, é aquela na qual o ensino é de muita qualidade, é aquela na qual a juventude esteja virada para coisas positivas, em vez de maratonas e intermináveis bebedeiras, é aquela na qual os universitários dedicam-se fervorosamente à pesquisa e à investigação. Na Angola do futuro, o sistema de saúde robusto e funcional, abrangente a todos os angolanos. Na Angola do futuro, a comunicação social pública é, definitivamente, apartidária. O sistema judicial, na Angola do futuro, será implacável para todos os criminosos sejam eles de colarinho branco ou não, sejam eles governantes ou governados. Esta é a minha humilde opinião sobre a definição de Angola do futuro. Demasiado sonhador? Pois, eu também “have a dream”.
Evidentemente, a Angola do futuro não surge do nada, e claro, nem cai do céu, mas, podemos pedir ao criador do universo que nos ilumine e nos dê forças para essa grande empreitada. Na verdade, a empreitada já começou, só que alguns aspectos dessa empreitada estão mal direccionados, vejamos:
- Que país no seu perfeito juízo gasta tantos milhões de dólares em organizar campeonatos de Futebol, quando as suas crianças vêm ao mundo em condições precárias e estudam em escolas abomináveis?
- Não se pode, de maneira nenhuma, se quisermos uma verdadeira democracia, concentrar demasiados poderes num só homem. Isso não acontecia na Idade Média?
- Uma sociedade que se quer saudável não pode, de modo algum, dar mais importância ao TER do que ao SER. Principalmente, se esse TER é de origem duvidosa.
- Não se pode passar aos jovens a ideia de que devemos ser imediatistas.
- É preciso que seja dito aos adolescentes e jovens angolanos que as bebidas alcoólicas são drogas. Aqui urge criar leis claras quanto à idade de consumo.
- Uma sociedade que se quer saudável não pode, absolutamente não, abandalhar os seus idosos e demonizar as suas crianças. Isso não faz sentido!
- Uma sociedade saudável não pode manter certos dramas do passado inexplicáveis. Como exemplo, temos os acontecimentos do 27 de Maio de 1977. Penso sinceramente que, já é hora de se fazer algo semelhante ao que se fez na África do Sul em relação às vítimas e aos carrascos do Apartheid.
- Uma nação saudável não pode promover assimetrias e desigualdades regionais, quanto ao desenvolvimento.
- …
Mas, afinal, o que, onde, como, e quando poderíamos contribuir para o desenvolvimento de Angola?
Para começar, diria que, devemos nos dedicar mais aos estudos, ao trabalho, à família e aos amigos. Esse seria o grande pontapé de saída. Partindo do pressuposto de que com os estudos teremos a formação académica e profissional. Com o trabalho ganhamos mais experiência e excelência, com a família tornaremos a nossa sociedade mais coesa e saudável. Essa coesão há-de se reflectir de forma muito positiva nas relações intrafamiliares e interfamiliares, e na sociedade como um todo que, estará mais compenetrada no cumprimento dos seus deveres e obrigações.
O segundo grande passo é conhecermos a história de Angola, sob várias perspectivas. Penso que é importantíssimo para os jovens angolanos conhecer a história do nosso país. É uma obrigatoriedade de um verdadeiro patriota. Falo de conhecê-la sem preconceitos, sem medo de escutar de todos os intervenientes, sem medo de consultar as mais diferentes fontes de informação.
É preciso desmitificar muitas coisas que nos foram incutidas no tempo da guerra. Durante o período de guerra, todo o mundo queria puxar a sardinha para a sua brasa, e ninguém aceitou ser chamado à razão, e à realidade que, não era nada mais, nada menos do que o sofrimento das populações angolanas. Não se trata de apontar o dedo a culpados, mas sobretudo perceber os contextos históricos, sociais, políticos e ideológicos nos quais em que ocorreram os eventos que marcam a contemporaneidade de Angola. A percepção de todos esses contextos é um acto de patriotismo que, por conseguinte, nos permitirá entender melhor o actual estado de coisas. E, entendendo o estado actual de coisas, permitir-nos-á perspectivar o melhor e o mais recomendável rumo para Angola, entendendo o actual estado de coisas compreenderemos a importância que tem o exercício da cidadania, entendendo o actual estado de coisas valorizaremos muito mais a liberdade de expressão, de reunião e de imprensa, entendendo o actual estado de coisas saberemos que o voto deve ser consciente, entendendo o actual estado de coisas, muitas luzes se acenderão.
Se não conhecermos a nossa história corremos o sério risco de ficarmos alienados e propensos a aceitar tudo o que nos coloquem sobre a mesa. Claro que isto é inaceitável e nada tem de académico. Adicionado a isto, é o facto, que é do conhecimento geral, de que o nosso país tem particularidades invejáveis. Ora bem, a nação angolana é um mosaico de nações, do ponto de vista cultural e etnolinguístico. Somos realmente muito ricos! Sinto-me particularmente orgulhoso de possuir amigos, colegas de trabalho, familiares e vizinhos, de todas as nações que formam Angola. A outra particularidade da nossa terra é a riqueza natural! É sabido que o nosso subsolo é mais rico do que 1000 Bill Gates juntos.
Então, o que nos falta? Nos falta visão, nos falta interiorizar que a nossa grande riqueza é a pessoa humana, nos falta conceber um futuro risonho para as próximas gerações, nos falta habilidade para separar o privado do público, nos falta inverter a invertida pirâmide de prioridades, nos falta utilizar a nossa massa critica para o bem comum, nos falta criar instituições fortes e não homens fortes, nos falta cumprir o que está estipulado nas leis, nos falta perceber que o estado somos nós, nos falta acreditar em nós como motores da mudança, na verdade o que nos falta é sermos cidadãos de plenos direitos.
Pois é, meus caríssimos compatriotas, eu acredito numa Angola melhor e vós?
Este é o nosso momento.
Este é o nosso tempo!!!