Quando a fé se torna indústria e
a esperança substitui a exigência, o povo paga a conta duas vezes — na carteira
e no futuro.
Angola tem igrejas a mais e
escolas a menos. Em vários municípios de Luanda, o número de templos supera o
de estabelecimentos de ensino público com condições mínimas de funcionamento.
Este facto, por si só, não seria preocupante se as igrejas cumprissem apenas a
sua função espiritual. O problema começa quando deixam de ser casas de culto
para se tornarem negócios de esperança e agrava-se quando esse negócio prospera
precisamente à custa da ignorância, da vulnerabilidade e da pobreza que afirma
combater.
A correlação entre a proliferação
religiosa e o subdesenvolvimento em Angola não é acidental. É estrutural. E
percebê-la exige honestidade intelectual que poucos se permitem, por medo de
soar impopular numa sociedade onde a fé é simultaneamente consolo e identidade.
O modelo dominante das igrejas
que proliferam em Angola, maioritariamente de matriz neopentecostal, muitas
delas de origem brasileira, nigeriana ou congolesa, não é o do serviço
espiritual gratuito. É o de uma indústria sofisticada de extracção económica. O
dízimo obrigatório de dez por cento do rendimento, as ofertas de
"semente" prometendo retorno multiplicado, os pagamentos por sessões
de "libertação", por "unções especiais" ou pelo simples
acesso ao pastor, tudo isto constitui um fluxo contínuo de transferência de
riqueza das famílias mais pobres para os líderes religiosos, tornando-os mais
ricos.
É uma redistribuição ao contrário. Enquanto os
Estados modernos tributam os mais ricos para proteger os mais frágeis, este
modelo tributa os mais frágeis para enriquecer os que já têm poder. O resultado
visível são pastores que conduzem viaturas de luxo em bairros onde os seus
fiéis não têm acesso à água canalizada.
A explicação sobrenatural do
sofrimento é a mais eficaz das ferramentas de dominação. Quando a pobreza é um
"ataque espiritual", o Estado não tem culpa e o povo não tem razão
para exigir.
O segundo mecanismo, mais subtil
e talvez mais pernicioso, é ideológico. Quando o desemprego, a doença, a
miséria e o fracasso pessoal são sistematicamente explicados como resultado de
"ataques espirituais", de "falta de fé" ou de
"maldições geracionais", remove-se a análise das causas estruturais.
O crente que atribui a sua pobreza a um demónio familiar não questiona o Estado
que lhe nega emprego, educação ou saúde. Não exige políticas públicas fiáveis e
consistentes. Não organiza resistência colectiva. O que faz? Volta para casa,
jejua três dias, e paga mais uma oferta para "quebrar o feitiço".
É evidente que esta
despolitização do sofrimento é extremamente conveniente para os governos que
falham as suas populações. Não é coincidência que regimes autoritários em
África cultivem relações próximas com os líderes religiosos mais influentes. A
lógica é simples: uma população que explica os seus problemas em termos
espirituais é uma população que não responsabiliza o poder político pelos seus
problemas materiais. A Igreja legitima o poder e o poder protege a Igreja. O
povo paga as contas de ambos.
Há um custo menos visível, mas
igualmente real: o tempo. Em muitas comunidades urbanas angolanas, os crentes
passam entre quinze a vinte horas semanais em actividades religiosas. Torram
muito tempo em cultos de semana, vigílias nocturnas, estudos bíblicos, reuniões
de célula, cultos de domingo. Este tempo aplicado à formação profissional, ao
desenvolvimento de um negócio, ao estudo dos filhos, à participação cívica ou
simplesmente ao descanso recuperador, teria um valor económico e social imenso.
Não se trata de negar o direito à espiritualidade. Trata-se de reconhecer que o
modelo de consumo religioso imposto por estas igrejas, que beneficiam
directamente de uma filiação intensa e permanente, compete directamente com o
desenvolvimento humano dos seus membros.
Como nota de equidade, sublinhar
que seria desonesto ignorar o outro lado. Em muitas comunidades angolanas, as
igrejas são a única rede de segurança social real. Alimentam crianças, acolhem
doentes, mediam conflitos familiares e étnicos, fornecem redes de
solidariedade. Onde o Estado angolano falha completamente, a igreja preenche o
vazio. Portanto, o problema não está na função social que cumprem. O problema
está no modelo de negócio que a envolve e na ideologia que impede os cidadãos
de exigir que o Estado cumpra as suas obrigações. Logo, devemos perguntar: a
proliferação de igrejas é causa do subdesenvolvimento angolano, ou é sintoma do
mesmo? A resposta honesta seria: as duas coisas, simultaneamente. Sociedades
com instituições estatais frágeis, sem horizontes económicos e com alta
ansiedade existencial é terreno fértil para o negócio religioso. A incerteza
cria procura de certezas sobrenaturais. A pobreza cria procura de milagres. A
ausência de justiça cria procura de julgamento divino.
Mas o negócio, uma vez instalado,
tem interesse em perpetuar as condições que o geraram. Uma população educada,
crítica e com mobilidade económica ascendente é uma população menos susceptível
à teologia da prosperidade, menos dependente de pastores como intermediários do
divino, e menos disposta a entregar dez por cento do seu rendimento em troca de
promessas não verificáveis. Por isso, consciente ou inconscientemente, este
modelo eclesial tem interesse estrutural na manutenção da ignorância e da
vulnerabilidade. É um ciclo que se auto-alimenta. A pobreza gera a dependência
religiosa, a dependência religiosa aprofunda a pobreza. A pobreza aprofundada
gera mais dependência religiosa. Quebrar este ciclo exige três coisas que o
modelo actual tem interesse em suprimir. Uma educação pública de qualidade, um
Estado social funcional e pensamento crítico generalizado.
O meu argumento não é contra a
fé. A fé, na sua expressão genuína, é uma dimensão irredutível da experiência
humana. O que está em causa é a instrumentalização da fé como mecanismo de
extracção económica e de controlo social. Está em causa a diferença entre uma
instituição que serve a sua comunidade e uma indústria que explora a
vulnerabilidade da mesma.
Para concluir, afirmo com
veemência que Angola merece igrejas que construam escolas em vez de condomínios
privados para os seus pastores. Merece líderes religiosos que defendam os seus
fiéis perante o Estado em vez de legitimarem os que os oprimem. Merece uma
sociedade onde a esperança não seja um produto à venda e onde o futuro seja
construído com trabalho, conhecimento e exigência cívica, e não aguardado de
joelhos.
Enquanto Angola continuar a ter
mais templos do que bibliotecas, mais vigílias do que oportunidades de
formação, e mais pastores milionários do que engenheiros bem pagos, a equação
do subdesenvolvimento permanecerá inalterada. Os demónios que nos afligem têm
nomes concretos: má governação, petróleo amaldiçoado, educação desamparada,
pensamento crítico anulado. E estes, não se exorcizam com ofertas. Exorcizam-se
com cidadania.
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